terça-feira, novembro 28, 2006

Apenas amigos

Pegou a caneca com cerveja até a borda e deu um belo gole. Deu um suspiro e virou a cabeça para os lados.
- Isso aqui... nossa! Quanto tempo! Você também lembra?
- Sim, claro. Brincávamos juntos a tarde toda por esse quintal.
- É. Nos sujávamos e aí tomávamos um banho de mangueira para depois mergulharmos na piscina. Nem dava pé pra gente.
- Já engoli tanta água dessa piscina...
Eram amigos desde os 3 anos de idade. Estudaram juntos, sempre foram ótimos amigos. Agora regressavam à casa onde passaram infinitas tardes de férias sob o mais escaldante sol da região dos lagos, com o cheiro de sal que vinha das salinas vizinhas. Traziam seus respectivos conjugues junto, um fim de semana entre amigos, uma véspera de Natal.
- Isso tudo parecia maior – disse Carlos.
- É lógico, éramos muito pequenos.
- É estranho, muita coisa por aqui mudou. Nós mudamos, não é mesmo? Mas ainda sinto uma vontade de correr e me jogar na grama, lutar com inimigos invisíveis usando um pedaço de pau como espada.
- Hahaha, ia ser uma bela cena a ser assistida! – observou Elisa.
- Com licença, eu vou ao banheiro – disse Luiz, marido de Elisa, já se levantando da mesa. Depois de cinco latinhas de cerveja a situação fica um pouco complicada!
- Sim, claro, daqui há pouco sou eu!
- Vou aproveitar e fumar um cigarro lá fora, tudo bem?
- Vai nessa.
Marta se apoiou no braço da cadeira e por pouco não desabou no chão. Estava meio tonta com o álcool. Caminhou pela sala e passou pela porta que dava para o quintal. Em frente, a piscina. Puxou um cigarro e hesitou em acendê-lo. Pensou nas recordações que seu marido estava tendo com Elisa e sentiu-se enciumada. Puxou o isqueiro e queimou a ponta do cigarro, tragando-o vagarosamente. A noite estava fresca e silenciosa, e ela pôde ouvir a brasa queimar sob o céu estrelado. Ouviu também as gargalhadas de Carlos e Elisa lá dentro. “São só amigos”, suavizou.
Luiz também deixa a casa e caminha em direção a Marta. Traz consigo duas latas de cerveja.
- Quer uma?
- Ah, obrigada! Eles ainda estão lá, relembrando os maravilhosos tempos de infância?
- Sim, estão se divertindo horrores.
- Pois eu, não.
- Você é muito difícil de agradar.
- Não sou não. Eu apenas gostaria de me incluir na conversa, mas não participei dessas histórias.
- Eu entendo.
- Você acha que há algo entre os dois?
- Creio que não. São apenas grandes amigos, praticamente irmãos.
- Assim espero. Não ia gostar nada de descobrir um caso entre eles.
- Hahaha, hipócrita!
- Hipócrita nada! O que há entre nós dois não é um caso, Luiz!
- Ah, você interpreta assim? Vai dizer também que não tem mais atração por mim, que essa armação toda de você vir aqui pra fora só para me dar um beijo não quer dizer nada?
- Eu ainda não te beijei...
- Questão de tempo. Termina logo esse cigarro.
- Pronto. Vamos um pouco mais pra lá onde eles não podem nos ver.
Enquanto isso, dentro da casa, os dois amigos continuam apenas amigos. Existe um grande elo de união entre os dois, um elo de carinho e respeito, acima de tudo. A cerveja, agora, os acompanha.

Cidade milagrosa!

Eis, mais uma vez, o trânsito caótico da chamada Cidade Maravilhosa. Maravilhoso! Calor, impaciência e stress reunidos dentro deste ônibus, pequeno demais para me conter dentro dele. As saídas de emergência me seduzem, sempre. Uma vontade louca de pegar esses martelinhos e estilhaçar janela por janela, assistir o espanto no rosto dos passageiros, todos com as mãos sobre os ouvidos gritando “olha esse moleque, tá doido, ô, ô, ô, rapaz!”, e eu nem ia ligar, porque se traficantes queimam os ônibus com pessoas dentro, porque eu não posso brincar com as janelinhas sem fazer mal a ninguém? Cidade Maravilhosa, ah!
De volta à realidade, garotão. Esqueça o mundo, esqueça o suor escorrendo pelas costas e molhando sua bunda. Esqueça, olhe ao seu redor e busque alguma razão para este dia existir. Uma televisão ligada dentro de uma loja exibe aquele famoso desenho animado, Cinderela, mas que contraste! Como se fosse um cinema ao ar livre, alguns meninos assistem ao filme sentados no canteiro da calçada, brilhando com poças de suor pelos corpos praticamente nus, perguntando a si mesmos se não seria uma miragem causada pelo calor. Estão fascinados. São crianças descobrindo a infância, finalmente, com seus cigarros empunhados, um reles brinquedo que solta fumaça ou um sinônimo de maturidade, prestam atenção, se empurram, riem e se divertem.
Eles não querem voltar à realidade. Isso mesmo, durante a próxima hora, esqueçam o mundo que lhes chuta no traseiro, esqueçam a falta de sorte e assistência. Vocês ainda são crianças e têm este direito. Levantem os braços e agradeçam o milagre oferecido pela Cidade Maravilhosa. São lágrimas nos meus olhos? Não, não, deve ser suor.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Entrevista com o vampiro

“sabe, já faz tempo que eu escrevo letras de músicas. já fui muito ruim, tentava disfarçar escrevendo em inglês, que você pode escrever qualquer porcaria que fica legal, ainda mais quando se trata de rock, né? deve ser porque o rock foi feito em inglês e isso deixa as coisas muito mais fáceis. de repente eu percebi que talvez fosse legal arriscar rabiscar alguma coisa em português, afinal, eu passei a maior parte da minha vida fazendo redações para o colégio, todas escritas em português, claro, com exceção das redações das aulas de inglês que eu achava um saco, bem contraditório, eu sei. eu também não via nenhuma chance da minha banda se dar bem por aqui cantando em inglês, nem mesmo lá fora, éramos muito novinhos e nem tão bons. bem, escrevi umas músicas em português e foi difícil essa transição, usei muitas palavras escrotas como “pirraça”, “vacilou”, e isso não cai bem numa música de rock, mesmo sendo bastante sincero e tal, mas o pessoal gostou e gosta até hoje. eu não gosto mais. como tudo, com prática você acaba melhorando e acho que isso realmente aconteceu comigo, comecei a pensar mais em quais palavras escrever, tal como Hemingway, não é? pelo menos é o que dizem, que Hemingway ficava horas pensando na frase perfeita, escrevia e reescrevia a mesma frase milhões de vezes até ficar do jeito que ele queria. não, não chego a tanto.”
“...”
“de uns tempos pra cá, eu comecei a escrever textos aleatórios, sem muito compromisso, quer dizer, o único compromisso é comigo mesmo e minha autocrítica, e tomei o hábito de ler. tenho lido muito, devo ter lido mais de trinta livros esse ano, provavelmente. assim se aprende, assim você adiciona palavras ao seu vocabulário e, pô, eu decidi aprender a falar a minha própria língua, isso é estranho mas totalmente compreensível.”
“...”
“estar em contato durante mais tempo com as palavras ajuda muito a eloqüência, você não fica “moscando” meia hora tentando lembrar tal palavra, você simplesmente a substitui por outra, isso é muito legal. tenho muita admiração por um professor que tive na faculdade, o cara nunca parava de falar, digo, nunca emperrava com aqueles “ééééééé”, “aaaahhhmmmm”, “como é mesmo?”. o cara tinha palavra pra tudo!”
“...”
“pois então, eu tava fazendo a grade de horário na faculdade e tinha que pegar uma optativa, eletiva, sei lá, aí vi ‘Oficina de Texto’ e pesquisei sobre a matéria, perguntei para alguns amigos se eles já haviam feito essa cadeira, e alguns já haviam feito e dividiram opiniões. os jornalistas gostaram, a maioria dos publicitários não, porque diziam que era muito voltado para jornalismo. naturalmente, eu pensei. decidi arriscar e, agora que estou praticamente terminando a matéria, tenho também uma opinião positiva, apesar de estar me formando em publicidade período que vem.”
“aprendi, ou pelo menos exercitei mais os meus textos jornalísticos, mesmo não curtindo muito essa onda, mas com certeza é uma soma às minhas habilidades, hahaha!, ao mesmo tempo em que, no momento em que a professora liberou a possibilidade de escrevermos crônicas e textos livres, eu passei a escrever o dobro de textos que escrevia antes, espremendo o cérebro para arranjar assuntos interessantes – e muitas vezes não arranjei – e lidando diretamente com a criatividade, algo que eu prezo muito e considero uma das mais valiosas características de um ser humano.”
“mesmo já escrevendo letras em português há 6 anos, esta aula me incentivou a esmerá-las ainda mais, a fugir do óbvio e a driblar uma certa crise de inspiração que me assolava há uns meses, hehehe! agora já estou tentando bolar um jeito de escrever um texto de trás pra frente, de baixo pra cima. o problema é fazer com que ele tenha algum sentido! a língua portuguesa como um origami, eu devo ta ficando doente, um pouco mais doente.”
“...”
“sim, claro, escrevemos algumas resenhas e releases também, engraçado, porque também é algo que eu costumava fazer direto. enquanto o pessoal tava naquela febre de fotolog, eu fiz um pra mim e comecei a resenhar alguns CDs que tenho na minha coleção. a galera adorou e muita gente passou a conhecer algumas bandas por causa do meu fotolog de resenhas. releases, eu já enjoei de escrever releases para as minhas bandas, aliás, o último que eu escrevi eu gostei muito. é um release interessante porque conta praticamente toda a história da banda num texto sem pontos finais, dividido somente por vírgulas e alguns parênteses, o que dá mais velocidade ao texto e prende bem mais a atenção de quem lê. acho isso legal, fugir dos padrões, bater na cara do óbvio e do modelo. eu espero que outras pessoas que tenham feito essa aula de Oficina de Texto tenham pulado esse muro também. o problema é que, cá pra nós, jornalistas, em geral, são muito caretas e metódicos, muito disciplinados. falo mesmo!”

terça-feira, outubro 10, 2006

Era uma vez um título grande que não tinha muito a ver com o que se via por aí

*este texto foi escrito para minha aula de Oficina de Texto, na PUC, e resolvi manter a formatação usada no original (mesmo porque, se mudasse, o texto perderia muito do seu sentido)*

É aquela velha história. A professora passa uma tarefa, eu escolho fazer uma crônica e, como em 90% das vezes, o tema é livre. Eu inevitavelmente já estou caindo no clichê de escrever sobre a própria vastidão de idéias que me vêm à cabeça, sobre como é difícil focar em nosso objetivo quando simplesmente não existe um. Minha meta é apenas escrever. Pior, escrever da minha maneira, que nem sempre é bem vista.
Já enjoei de discorrer sobre a árdua arte de perseguir uma temática. Não o farei de novo. Já o estou fazendo. Caindo em contradição, mais uma vez. Aposto que daqui sairá mais um texto que, por puro capricho do destino, deverá ser impresso e de certa forma imortalizado – sem merecer – em vez de ser amassado e largado numa lata de lixo.
Por falar nisso, um outro dia eu estava martelando umas teclas e fiz uma mistura de frases na tela do computador. Só faziam sentido para mim. Imprimi e reli com cuidado. Sorri, amassei e joguei no lixo. Na sexta-feira passada eu fiz o mesmo, mas escrevi a lápis num caderno. Foi durante uma aula e eu estava com sono, muito sono, e escrevi um monte de bobagens e palavrões, falei mal de um monte de gente e nem isso fez sumir a imagem da minha cama, ah, minha bela cama! quentinha e desarrumada, que rodava em minha cabeça, tão nítida que eu podia sentir seu peso, pronta para um mergulho como se fosse um lago cristalino. Cheguei em casa e dissequei essas palavras por um tempo. Eu só queria dormir, então arranquei o papel do caderno com um som rascante e o amassei com toda a força que ainda tinha nas mãos. Levantei a tampa da cesta de lixo e me deparei com uma folha embrulhada. Surgiu uma exclamação, e logo depois uma interrogação. Me abaixei e peguei a folha. Ao abri-la, lembrei do que havia escrito há dias atrás. Tanta coisa que eu julguei sequer ter merecido poluir uma folha tão branca, uma lasca de árvore, um pedaço de vida borrado por trivialidades. Os fatos tornaram-se desinteressantes, ultrapassados. Assim é a vida, na maioria das vezes. Me deu pena e raiva, ao mesmo tempo. Quis me machucar, mas estava cansado demais para isso. Dormi com as duas folhas nas mãos.
Eu tento evitar, mas é impossível. Começo a redigir um texto e tenho vontade de entortá-lo, de destruir a sua forma, de chamá-lo de monstro e feio e solitário e cretino e ouvir o que ele tem pra dizer depois disso tudo. Ele não se arrisca a dizer nada, é um fraco. Sabe que se abrir a boca ele vai direto pro lixo e nunca chegará a ser nada. É assim que as coisas funcionam sob o meu controle.
Já passou aquela fase da redação escolar. Ei, tantas linhas, titulozinho bonito, parágrafo com um dedinho de espaço da margem, blá, blá, blá e eu odiava isso tudo, mas acabava escrevendo porque não podia puxar a orelha da “tia” e dizer que isso é podre. Tá certo, as crianças têm que aprender a escrever corretamente, mas deveriam ser dados uns exercícios mais livres, onde elas pudessem sair rabiscando toda e qualquer palavra que viesse à tona e fossem incentivadas a ler mais. Eu nunca fui incentivado a ler. Na verdade, eu fui FORÇADO, um pequeno menino indefeso tendo de lidar com as palavras espinhentas de Machado de Assis, com os labirintos poéticos de Olavo Bilac e outros mais que a literatura brasileira adora enaltecer e puxar o saco. Tudo bem, eles deviam ser bons, aliás, passei a gostar de Machado de Assis depois da escola, quando pude lê-lo por livre e espontânea vontade, sem prazo de tempo, sem outros deveres e obrigações. Aí foi legal.
Aqui se vai mais um texto comum, mais palavras vomitadas por mim, mais estrago. Dessa vez, pelo menos, uso uma bela formatação, algo até certo ponto acadêmico. Sou o grande colecionador de linhas vermelhas do Word, de propósito mesmo. Ainda estou dando uma colher de sopa por usar letras maiúsculas. Normalmente eu as desprezo. Tão altivas, tão desiguais e opressoras. Pronto, hoje é o dia delas. Celebrem, dancem e bebam e rodem, mas não abusem. Por favor, me respeitem. Assim terão chances de ser poupadas mais vezes. É fácil, não faço muita revisão. É assim que as coisas funcionam sob o meu controle.

terça-feira, maio 02, 2006

Às 3 da tarde, pela 3ª vez, no caixa 3 para pagar 3 contas

acabo de voltar do banco tentando bolar um início decente para esse texto. geralmente eu não consigo fazer belas aberturas, promissoras e incentivadoras, e dessa vez não será diferente. acho mais fácil ir direto ao assunto.
quando se toma o hábito de ler e escrever, as ações cotidianas passam a ser observadas de maneira peculiar. as vidas geram intertextualidades, crônicas isoladas ou até mesmo livros, bíblias da rotina. nossos olhos são câmeras, são lápis e borrachas, rabiscando páginas invisíveis, tecendo comentários particulares, monólogos.
então eu desci pelo elevador e em pouco tempo estava na rua. tomei vento no rosto, que trouxe poeira mas também trouxe frescor. passei pela banca de revistas e jornais e vi alguns exemplares de “On the road”, de Kerouac. sorri discretamente para eles. ainda estou lendo o meu.
fiz o caminho já decorado. dobrei a esquina à direita, segui em frente até a próxima esquina, atravessei para a “ilha” e desci para a frente do shopping. continuei à direita e cheguei ao banco. não esperava uma fila tão grande às 3 da tarde. da ante-sala, observei os rostos fatigados, castigados, desalentados de quem está ali para perder e não para ganhar. são as tais crônicas errantes, cada qual com sua idiossincrasia. bufei e olhei ao meu redor. parecia que tudo estava ocupado. me enfiei na fila para o saque. não andava. uma mulher falava alto com um funcionário, mas não de maneira grosseira. apenas alto, e isso me incomodava. a fila não andou quase nada e percebi que estava no lugar errado, e não no fim da própria, como deveria estar. me desloquei e olhei através da porta de vidro para a rua. encontrei uma outra banca de jornais e decidi dar uma olhadinha mais de perto. fui até lá e peguei uns livros já conhecidos mas não lidos, fitei as capas, os preços, a poeira. são livros que ainda quero ler, mas ando meio sem grana. qualquer dia.
voltei ao banco e a fila parecia não se mover. tive a brilhante idéia de sacar o dinheiro no shopping, então tornei a sair à rua, entrei no shopping e, só para confirmar minha simples teoria de que sempre terá alguém que chegou antes de você, na sua frente, fazendo o que você gostaria de estar fazendo, dei de cara com uma mulher encostada ao caixa. o caixa ao lado estava vazio, felizmente. testei o cartão e a máquina não o aceitou. forcei mais uma vez e nada. parecia bloqueada. bufei de novo e me firmei às costas da mulher no caixa da esquerda. que demora. que demora. “quer ajuda?”, pensei em perguntar, mas ela logo se virou e me atacou primeiro. “essa caixa aí não ta funcionando”? “acho que não”, respondi, “tentei colocar o cartão mas ele não entrou”. “vou tentar de novo”, e assim o fiz e o maldito cartão entrou pela gavetinha, feliz por estar sendo útil. realizei o que tinha de ser feito e saí do shopping, rumo mais uma vez ao banco.
entrei pela 3ª vez no estabelecimento e a fila para o saque estava completamente vazia. esse Murphy era um filha da puta de alta categoria pra perceber algo tão óbvio e tão sarcástico que o simples fato de criar uma “lei” com seu nome já soa como brincadeira. dei um “boa tarde” para uma funcionária que estava do lado da porta rotatória, segurei a mochila nas mãos e passei. agora o negócio era encarar a fila-mãe, intimidadora, incomensurável. vagarosamente, pisei em cima da faixa amarela escrita “entrada” e bufei pela terceira vez. não há muito o que se fazer numa fila de banco. as pessoas geralmente tentam criar assuntos em torno da demora, dos problemas do banco, da ineficiência de fulaninho ou fulaninha, gostam de botar a culpa no presidente mesmo sem saber por quê, etc. são assuntos que eu me limito a aquiescer, dizer um “é”, dar uma risadinha carismática ou simplesmente emitir um suspiro.
olhei para os caixas. no caixa 1, a mesma vesguinha da semana passada, com um aparelho adolescente nos dentes e cara de séria. no caixa 2, uma gordinha simpática pra caramba, atochada na cadeira por trás do balcão. bem baixinha, aparentemente, e muito ágil com seu milhão de dedos batendo freneticamente no tecladinho à sua frente. no caixa 3... ah, não acredito! é ela mais uma vez! uma morena lindíssima que me atendeu na semana passada, com a voz doce e um olhar curto, porém direto, uma certeza absurda de que é o centro das atenções masculinas, meninos, adultos, coroas, pedreiros, pintores, engenheiros, office boys, serventes, advogados, porteiros e o caralho a quatro, assim como modelo de inveja para a maioria das mulheres presentes. ela me cativou na semana passada e me cativa agora, com sua boca desenhada, sua atenção no trabalho, suas mãos bem cuidadas, suas sardas no colo, entre os pequenos, bem pequenos seios que tornam-se grandes desejos quando vistos de perto, imaginados nus e beijados. apenas sua sobrancelha lhe atribui um ar irreal, algo artificial naquele rosto meio índio, meio boneca, meio simples até, mas que se destaca dentro do banco monótono e a transforma na dona do universo.
a fila ia andando. seria muita coincidência ser atendido por ela mais uma vez. sabe como é aquele esquema de banco, quatro caixas que, assim que liberadas, apertam um botão na mesa e projetam o número do caixa livre numa espécie de placar eletrônico. impossível saber onde você irá cair. mas ainda faltava muito, a fila andava com um desânimo intenso, um tédio profundo. não dá pra se manter parado, então comecei a buscar mais informações ao meu redor. nada muito interessante, nada mais interessante que ela, a caixa número três, a morena linda das mãos cuidadas e sujas de tanto mexer em dinheiro. eu olhava para ela incontrolavelmente, ainda tentava disfarçar mas era ridículo. tentei fitar o chão, vi meus pés nos chinelos comprados num tal Bar do Zé, em Arraial do Cabo, um desespero. achei meus pés mais feios do que costumava achar. como se imantados, meus olhos se ergueram do chão indo direto ao encontro da moreníssima. ela estava mexendo em um monte de papéis, arrumando um chumaço agregado por um elástico. ela olhou pra mim também. tudo parou por um instante até que eu conseguisse piscar os olhos e balançar a cabeça, como se estivesse saindo de uma divagação absurda sobre a origem da Terra, os animais, as plantas, os homens, as sociedades, a globalização e o fim de tudo, a superfície sendo sugada por um buraco imenso no meio da maior potência internacional, como um ânus que em vez de cagar chupa toda a merda pra dentro.
bom, ela olhou pra mim também, eu tenho certeza! desviei o olhar para uma mulher baixinha à minha direita, totalmente por acaso, e encontrei um seio quase à mostra por uma fenda larga entre seu corpo e a camiseta rosa, ou sei lá que diabos era aquilo que ela estava usando. uma mulher negra, corpulenta, de mãos grandes e pés bastante castigados, mas com unhas muito bem feitas, percebeu meu experimento e me lançou um olhar de reprovação, como se eu fosse um aproveitador. não, não estava nem um pouco interessado neste pedacinho de carne prestes a pular para a vida, não, não, não! na verdade só estou aqui passando meu tempo, trocando mensagens codificadas com a caixa número três enquanto não sou atendido, tentado driblar o óbvio e focar meus olhos em outros lugares. foi pura loteria!
agora não faltava muito. 3 pessoas na minha frente. o placar mostra o número 1, e logo em seguida o 3. e se ela me atender de novo? coincidência? devo dizer algo a ela? ela se lembraria de mim? “ela me olhou de novo, acabou de olhar!”, comprovei. que porra de brincadeira é essa? será que ela percebeu que eu estou me entretendo com ela à distância? ela sabe que é linda, sacana. o placar mostra o número 2. o próximo sou eu. sim, eu devo dizer algo a ela. direi “oi”, ou “olá”, “boa tarde”, algo assim. pisca o número 3, em pequenas luzinhas vermelhas com uma seta à esquerda. inacreditável. a partir de hoje, devido a este golpe do destino, deverei abdicar do meu número amado, o 7, para abraçar o 3. vou andando bem devagar. de toda a excitação e empolgação que eu estava guardando para dizer um “oi”, só usei 5%. saiu uma palavra chocha, inaudível e, conseqüentemente não respondida. passei os boletos para ela. muito atenciosa, profissional essa mulher. desci meus olhos para suas sardas perfeitas, e como eu adoro pintinhas. estou sendo indiscreto, será? olhei para cima, para os lados, para ela. estava concentrada, mas com um pequeno sorriso nos lábios brilhantes. passei o segundo boleto pela placa de acrílico. vou escrever sobre você, e vou te tirar daqui. você fará parte de um texto meu, o grande jovem escritor, nem sequer ainda formado na faculdade de publicidade, mas que ganhará o diploma e o enfiará em algum buraco porque ele quer mesmo é viver escrevendo ou ser músico. você vai ficar famosa, a musa do caixa três, se aproveitará disso tudo e casará com algum ator de novela ou jogador de futebol, sua ingrata, e aparecerá freqüentemente em revistas de fofoca. ei, eu vou salvar você!
paguei a 3ª e última conta e dessa vez o meu “obrigado” foi respondido com um inesquecível “de nada”, seguido de um “tchau” e acompanhado por um olhar derradeiro. que mel, que estranheza, que atípico. caí em mim e dei logo o fora daquele lugar. atravessei as ruas vagarosamente, ainda em choque pelo incidente. o que estava acontecendo? o que o tédio não faz com a gente. quantos detalhes, quantos minutos, quase uma hora! o coração batia forte por uma mulher que deve ter nascido pelo menos uma década antes de mim. perguntas surgiam, brotavam como bolhas depois de jogado sal de frutas na água. de onde será que ela é? o que será que ela faz enquanto eu sento no meu quarto e como dúzias de chocolates, deixo minha cara cheia de espinhas? será que tem alguém, algum namorado, noivo, marido? uma crônica nunca lida por mim, mas, como os livros da banca, um dia eu a quero ler.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Amidalites, pro inferno!

são 3:35 da manhã e eu estou lamentando a maldita amidalite que me venceu. gritos, cervejas e cigarros não formam uma boa combinação, e eu já havia aprendido isso há tempos. apenas me recuso a evitá-la. ela me conquista, me testa e sabe que sempre irei ceder.
pois bem, hoje quando me levantei achei que tivesse com um par de meias socado no gogó. a sensação era parecida. ensaiei um murmúrio e constatei que precisava ir ao banheiro cuspir todo aquele pus e saliva que me impedia de respirar tranqüilamente. fi-lo. meu rosto no espelho não estava mal, apesar da barba rala. levemente corado e estranhamente “liso", ou melhor, sem muitas espinhas. acho que consegui me desvencilhar de minha adolescência.
resolvi tomar logo um antibiótico numa atitude desesperada. 500 mg de algum composto químico milagroso jaziam na palma de minh
a mão, na aterrorizadora forma de um comprimido gigante. acho que os caras que inventam esse tipo de coisa esquecem que quem irá tomá-las são pessoas com apenas 0.5 cm de espaço livre entre as amídalas para a passagem de alimentos, ou líquidos. muito obrigado!
não senti fome, e nem poderia sentir. tentei engolir um pouco de saliva e a dor me convenceu de que talvez não fosse tão mal passar um dia em jejum. talvez fosse mais prudente. bebi uns goles d’água – temperatura ambiente – que desceram como um enxame de abelhas goela abaixo. eu precisava resistir.

minha barriga começou a roncar e então experimentei abrir a geladeira e procurar algo não muito sólido. nada. nem um iogurte ou coisa parecida. lembrei que também não deveria ser nada muito gelado, e então fechei a porta. nada no armário, igualmente. hoje não é meu dia, pensei. já estou fodido mesmo, bem, fodido e meio, então. reabri a geladeira e busquei algumas coisas para preparar uma pizza de frigideira. montei a desgraçada e olhei pra ela fixamente por alguns segundos. eu podia ouvi-la, saboreando as palavras: “me coma, me coma... se puder”. sacrifício! desejei com todas as minhas forças que essa pequena pizza pudesse ter o poder de me alimentar e saciar minha fome durante o resto deste maldito dia.
era como tentar passar uma cadeira pelo gargalo de uma garrafa de refrigerante. deixei um copo de mate em cima da pia durante todo esse tempo para que não ficasse tão gelado. não adiantou, mas não liguei muito pra isso e bebi do mesmo jeito. dane-se. rebeldia, pô! é isso aí! “e agora eu vou fazer nada”.
amidalites me tiram o ânimo pra fazer qualquer coisa. tentei assistir a um filme, mas o telefone não deixou. me rendi e acabei saindo pros arredores de casa. pouco tempo depois estava de volta. precisava beber um pouco. a cerveja estava ali do lado, podia sentir o cheiro e até mesmo o gosto... foi melhor voltar.
estou perto de tomar uma grande decisão. acho que vou tirar minha amídalas. elas não servem pra nada, nunca serviram. cansei. talvez faça um chaveiro com uma delas.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Um feriado bastante aguardado

eu ando dando muito valor aos fins de semana. são alguns pouquíssimos dias de descanso, mas que geralmente resolvem parte dos meus problemas. anseio pelo sábado e pelo domingo como uma criança que aguarda o relógio marcar 00:00 do dia 25 de dezembro para que possa, enfim, abrir seus presentes de Natal. imagine qual não foi minha excitação ao me dar conta de que este fim de semana seria melhor que os outros pelo fato de contar com um belíssimo feriado na terça-feira? sim, o dobro de dias para me esbaldar por aí!
mas o que aconteceu foi que a pilha descarregou logo na sexta-feira à noite. foi uma ótima noite, uma despedida digna. desfaleci. acordei no sábado já com 39.1 de febre, um princípio de conjuntivite e dores que mastigavam minhas pernas. alguém achou que eu merecia uma coisa dessas, talvez. não conseguia me manter em pé por mais do que alguns minutos. sem fome, sem motivação, sem ânimo. mal conseguia pensar. dormi quase que o dia inteiro, feito um mendigo de porre. não, não! antes eu fosse um mendigo de porre, nas ruas, com aquele sorriso despreocupado na boca quase sem dentes. pensando bem, eu não sei quem estava pior. eu, que tinha noção da minha situação, ou o mendigo, que empurra a vida com a barriga - vazia -, sem esperança alguma de mudança.
acordei no domingo já com algum apetite. sinais de que eu poderia estar melhorando. me toquei de que havia perdido um sábado inteirinho. bom, se serve de paliativo pra mim, pelo menos eu descansei horrores. bah, não posso continuar me enganando. achei que meu domingo fosse transcorrer da mesma maneira, mas ela veio aqui me ver! assistimos a um filme, comemos pizza, ganhei abraços e beijos. foi melhor do que muitos domingos sadios.
veja só, hoje já é segunda-feira e eu ainda não abandonei meu cativeiro. estou suando só de olhar pela janela. o sol me encara e parece dar uma risadinha. acho que ele tem algo a ver com essa conspiração. não nos damos muito bem, e isso está exposto na minha pele. que se dane. sempre preferi a lua. acho que hoje eu consigo vê-la do lado de fora da minha casa. me espere, prometo que hoje vou te encontrar!

(ouvindo 'minus the bear - this is what i know about being gigantic')

quarta-feira, outubro 19, 2005

(E)ra do (m)odismo (o)co

tenho a impressão de estar vivendo num mundinho fictício, plástico demais para mim. as pessoas fingem ser o que não são, fazem coisas que não querem, de fato. precisam chamar a atenção, precisam aparecer para o mundo. criam apelidos idiotas, modísticos, vazios. não possuem identidade. eu só enxergo uma massa uniforme, com pensamentos pequenos e falsas emoções. são figurinhas colecionáveis do Orkut, são modelos de gesso do Fotolog.
gostaria de poder jogar água e derreter esse frágil gesso. me incomoda tamanha vulgaridade, tamanha ingenuidade, infantilidade e necessidade de se fantasiar. são franjas, munhequeiras, caras, bocas e olhares tão ocos que me dão pena. simplesmente não me dizem nada! e chamam esta atitude de "emo"! bom, eu já estou exausto de tanto escrever sobre o assunto, mas é que me dá ânsia de vômito ver pessoas personificarem um estilo de música que eu gosto bastante (e tenho algum conhecimento sobre) de maneira triste. triste no pior sentido. me dá pena, e um certo asco também. pessoas miúdas, consumistas, modernistas e doentias. pessoas sem noção do ridículo, eu diria.
já li em alguns lugares que "emo é um estilo de vida", e os indivíduos que seguem este way-of-life DEVEM ser tristes, adorar estrelas, fazer carinha e voz de criança, conversar sobre coisas infantis, etc. puta que me pariu, é isso mesmo? as pessoas escolhem isso como normas a serem seguidas? por que elas não desligam um pouco a TV e param de ler Capricho para se dedicarem a livros mais interessantes? ou então param para pesquisar sobre o que se trata realmente a música emo? esquecer os chavões e clichês como "letras de amor" ou roupinhas de marca. esse pessoal tá precisando é de uns bons tragos e algumas fodas - com pessoas do sexo oposto, vale ressaltar. não que eu seja preconceituoso, pois não sou. só acho que o tal bi-sexualismo está em alta, e não vejo razões para isso. hoje em dia é legal ser uma menina de 14 anos que fica com outras meninas. hoje em dia é legal se rotular um "emoboy" e andar de mãos dadas com os amiguxos. o espírito rock n' roll está sendo substituído pelo espírito barbie underground, onde a imagem bate o áudio. porra, não dá pena?
sim, o mundo está de cabeça para baixo, forçando-me à saída de emergência. não me enquadro neste nicho negativamente quimérico, apocalíptico. rezo para que bons ventos varram as maquiagens e levem embora tudo o que há de superficial por aqui. eu preciso respirar um pouco.

sexta-feira, outubro 07, 2005

O dia dos renegados

alguém mais andou olhando pra cima nos últimos dois dias e se sentiu asfixiado? parece que um véu cinzento foi posto sobre a cidade com o intuito de acabar com seus moradores. acabar mesmo. não se sabe se vai chover agora, daqui há dois minutos, amanhã ou se já está chovendo mas ainda não te acertaram. eu gostaria de saber o que se passa lá em cima.
eu olho pra cima e sinto minha garganta inflar, como quem engole um angu gelado completamente contra sua vontade. eu, particularmente, detesto angu, e ele me traz más lembranças. eu lembro de um episódio ocorrido há uns 15 ou 16 anos atrás, quando minha mãe obrigava - sem êxito – a mim e à minha irmã a comer angu. lembro da cena com perfeição... os dois sentados no chão do meu quarto com um prato de angu na frente. sei que após algum tempo de insistência, minha mãe perdeu a paciência e enfiou a nossa cara no prato. hahaha, hoje eu me divirto muito com isso, mas na hora eu chorei demais. era angu até no cabelo.
é estranho como coisas que no momento são péssimas podem se tornar futuras anedotas. uma diarréia inconveniente no meio da rua é uma forte candidata a ser um chiste futuro! um tombo em lugar público, uma gafe com um desconhecido, uma saia justa, um pé-na-bunda. as coisas passam e as emoções são varridas. a maioria das emoções não é indelével. parece que cada uma delas tem um certo momento para aflorar, e um certo momento para desvanecer. elas pertencem a um certo nó dado pelo destino, se alguém acredita nisso.
eu gosto de pensar assim, que a vida da gente já está traçada em algum papelzinho de lembrete que alguém acima deste véu cinzento carrega no bolso. o problema é que esses papéis são relativamente pequenos, e quando ele já está todo rabiscado é preciso continuar escrevendo em um outro. mas são muitas pessoas para se cuidar, e eventualmente, algumas milhares são esquecidas de ser atualizadas diariamente. e somem, às vezes sem motivo aparente. caem sem tropeçar e se vão. não é por mal. todos nós esquecemos de coisas, importantes ou não. importante pra mim não quer dizer que seja importante pra você, etc. e quando o cara responsável pela atualização de nossas vidas se toca de que é realmente bastante esquecido, ele chora. chora mais por uns do que por outros. maldito dia de finados, em que o rapaz sempre é obrigado a lembrar dos renegados por ele.

(ouvindo 'rescue - flamingo minutes')

quinta-feira, setembro 08, 2005

São partes novas de um mesmo inteiro

um raio me rachou ao meio. metade corre, a outra se esconde. não que elas estejam brincando entre si. elas batalham em silêncio, independentes.
a metade que corre se cansa, mas não desiste. ela tem muita força de vontade e quer provar para si mesmo sua força. suor disperdiçado nas primeiras horas. continua correndo e vê resultados. se preocupa em esmerar. resultados ralos, não tão convincentes. mas ela é contumáz e continua sua tarefa com grande afinco. os resultados são os mesmos. chega uma hora que se sente extenuada, vê ir embora seu afã. neste exato momento, sua outra metade - a que se esconde - passa a seu lado. se esbarram e por alguns segundos se fundem. tornam-se um só, como no início. uma só mente tem de colocar em ordem milhares de pensamentos conturbados, de ambas as partes. caos interior. sim, dois raios podem cair no mesmo lugar, e o segundo me acerta assim que meus pensamentos se estabilizam. deve ter sido isso que o atraiu. as partes estão separadas mais uma vez.
uma corre, a outra se esconde. a que corre se pergunta por que deveria continuar a correr, e com isso pára. a que se esconde não vê mais motivos para se esconder, e assim vem para a luz. as partes se encaram, se entreolham e se entendem. é preciso correr e se esconder mais uma vez. sem pressa. uma parte anda, a outra dorme.
a que anda tenta mais uma vez, sem expectativas. desalentada, lânguida. mas assim obtém bons resultados. fica em dúvida. a parte que dorme ganhou mais forças. elas não sabem por quê. ora, estou chamando-as de "partes" agora, e não mais de "metades". se fundiram, e ao se dividirem, uma delas saiu mais forte. ela dorme, com mais forças. não sabe de seu novo poder. a que anda, apesar dos resultados positivos finalmente alcançados, chora em indagações. a parte que dorme, sonha.

(ouvindo 'your enemies friends - you are being videotaped')

terça-feira, setembro 06, 2005

A hora do basta... talvez

hoje eu vi a chuva. a chuva me viu também e não me poupou. subi no ônibus já encharcado e coloquei-me no meu lugar. comecei a observar a janela ao meu lado e lembrei do texto de uma amiga. ela conseguiu lembrar de uma coisa singelíssima, ingênua. uma espécie de símbolo da ternura infantil. eu voltei anos no tempo. estendi meu dedo para a direita e fiz um risco no vapor condensado na janela. sorri sozinho, como uma criança que acaba de encostar numa certa folha e a vê fechar-se sobre si. foquei minhas idéias em metáforas, como acontece frequentemente. o tempo corre, escorre, como a água na parte externa da janela. embaça, turva, esfria, esquenta. nos confunde. um risco amarelo cortou minha vida com alguns anos de atraso - não queiram entender. eu escrevo pra mim.
pois bem, eu falava sobre desânimo, cansaço e falta de consideração quando me ocorreu que talvez eu não precisasse enfrentar esse tipo de coisa. eu acho que estava me forçando a suportar isso tudo como uma verdade única e inexorável. fiz uma última tentativa e fui bem sucedido. acho que teria desistido frente a mais uma negação.
agora eu engasgo. eu hesito e volto a me questionar: há futuro nisso? a resposta ronda a ponta de minha língua, quase ganhando forças. eu balbucio um "não", breve, tímido, porém cheio de razão. eu levo tudo nas costas, sozinho. a paciência se exauriu. decidi não mais me iludir com uma noite maravilhosa. eu preciso de muito mais e não creio que ela esteja disposta a encarar essa tarefa. ah... enfim, algum tipo de atitude. ainda que incompleta.

(ouvindo 'sparta - wiretap scars') -> enquanto escrevia
(ouvindo 'garage fuzz - the morning walk') -> enquanto postava

quarta-feira, agosto 24, 2005

A vista daqui de cima

estou curado! tenho quase certeza disso (é difícil ter certeza das coisas). após quase 2 meses, o telefone tornou a tocar e puder ouvir a mesma voz que me aqueceu durante 2 anos. eu não gaguejei, eu não tremi. meu coração permaneceu tranqüilo. não sou de guardar rancores e julgo-me um ótimo ex-namorado - talvez até melhor do que propriamente "namorado". ela parecia distante, mas acabou ficando mais à vontade aos poucos. realmente fazia tempo que não nos falávamos de maneira amistosa. ainda guardo muito carinho por ela, ou pela pessoa que ela foi enquanto dividiu a vida comigo. hoje ela é uma outra garota, com outros hábitos e gostos. um pouco decepcionantes, mas isso fica a meu critério, apenas.
eu já sabia que ela estava namorando um garoto. não gosto dele. pode parecer dor de cotovelo de ex-namorado abandonado, mas não é! realmente nunca gostei desse cara, e por isso não desejei felicidades. ela não parece muito feliz também, e essa notícia, de alguma forma, me deixou relaxado. é um pensamento escroto, mas é bom quando finalmente você está por cima e vê quem te fez sofrer numa plataforma mais abaixo, com os olhos voltados para o céu. tentam encontrar explicações. não que ela esteja totalmente infeliz, não é isso. ela simplesmente criou um namoro onde não havia a menor necessidade de existir um. amigos, é isso que são. sem paixão. bom, não quero expor a vida da menina em miúdos.
foi ótimo conversar com ela durante uma hora e meia. é estranho contar pra menina que eu amei durante 2 anos os meus casos mais recentes. mais estranho é ela se interessar em saber. não gostou de saber, claro. eu também não gostaria. eu não quis contar muita coisa, apenas números e nomes. algumas situações. preferi não saber de nada. foi ela quem quis assim, um pra cada lado, então vamos tocar nossas vidas pra frente, sem nos preocupar. eu tenho planos, ela também deve ter alguns. e é isso.
devo estar realmente curado. ela mesma me deu a cura, incentivando-me, forçando-me a esquecê-la. e eu esqueci. num momento de raiva, disse-lhe que havia se tornado apenas um buraco em minha vida. é, mas eu tenho o coração mole e muita coisa pra viver ainda. tapei esse buraco com carinho, e apenas isso. deixo um "L" para correr atrás de outro. deixando rolar. há uma boa vista aqui em cima.

Fuga e redenção

trinquei os dentes e experimentei uma vez. tudo tremeu. hesitei em experimentar a segunda, mas o fiz. uma barra se partiu com um breve estalo. ninguém me notou. enchi-me de coragem, lacrimegei ao lembrar meus motivos e investi novamente contra a jaula de plástico. me vi do outro lado, livre, apenas com alguns arranhões. tornei a fitar a jaula e analisei o estrago que fiz. é, era necessário.
sem saber muito bem o que fazer em liberdade, decidi beber. o álcool nos ajuda a manchar lembranças, a turvar pensamentos inconvenientes. bebi demais a ponto de não conseguir pensar em mais nada. só em mim. já fazia algum tempo que não realizava tal proeza. me senti só, como realmente estava, mas era incapaz de perceber ou aceitar. tropecei em mim mesmo, me enxerguei dos pés à cabeça. não devia nada a ninguém.
de repente, beijei uma menina. não era ela. digo, não era ELA. foi tudo muito simples, muito casual. parecia estar tudo bem pra todo mundo. a resposta viria no dia seguinte.
como sempre, a resposta veio em código ("boys speak in rhythm and girls in code"). por alguns minutos, tive toda a certeza do mundo de que tinha jogado no lixo minhas chances com ELA. para mim, ela estava contaminada com a indiferença. do pouco que consegui decodificar de sua resposta, entendi que não estava. parece que se importou com o que aconteceu. agora eu sinto algo perto de um arrependimento. não é pleno porque realmente eu andava um pouco chateado com algumas suposições. a vida é feita de suposições. o whisky me convenceu de que eu estava certo, então fui em frente. eu não fiz nada com a intenção de esquecê-la, mas, talvez, com a intenção de me frear, de afastá-la um pouco da minha cabeça. não dá! eu não estou conseguindo. eu sou um fudido, fraco demais para lidar com essas peças que aquilo-que-os-românticos-e-perdedores-chamam-de-destino insiste em me pregar. e é sempre. me lembro de episódios absurdos. este é um deles. quando eu iria imaginar que seria possível? eu deveria crer um pouco mais em mim... e ela também. ou, quem sabe, deveríamos crer em nós?

quarta-feira, agosto 17, 2005

The rescue mission - status: very emergency

já voltei a dormir bem. deito na cama e logo consigo pregar os olhos e adormeço facilmente. fim da era da insônia que me açoitava durante as férias.
no entanto, o bom e velho amigo sono voltou com uma força tremenda. de manhã sinto-me um zumbi, com grandes olheiras e pouca vontade de fazer qualquer coisa. luto contra meu companheiro. não, ele andou me traindo, não posso aceitá-lo de volta assim, tão fácil. por mais que eu queira. ele quase me derrubou hoje, mas mostrei resistência. suportei por 4 horas seu assombro e aí, enfim, ele me conquistou. mas já estava em casa e não havia problema algum.
levantei e pude almoçar. isso pra mim é um luxo agora. somente às segundas e quartas eu consigo almoçar em casa, decentemente. cedo demais, mas ou é isso ou uma porcaria qualquer na rua. terminei o almoço e saí para Furnas. vim de carro, aproveitando que meu pai está viajando. a vantagem do ônibus é que, durante a viagem, eu geralmente faço uma faxina mental. observo as ruas, analiso o momento e penso muito. não penso muito, também. depende do dia. quando se está dirigindo não se pode pensar em muita coisa fora o trânsito. alguns malucos tacados na rua, como sempre, pondo em risco nossa paciência.
parece que meus dias estão passando em nós. parecem estar amarrados, formando um pequeno círculo. o que eu estou tentando dizer é que a minha rotina está sacal e tenho acordado todos os dias com a idéia fixa de que nada de novo irá acontecer. nada me surpreenderá, nada terá a capacidade de arrancar suspiros de mim. minha vida está estacionada e não vejo nenhuma saída para isso. acordar, tomar café, escovar os dentes, me arrumar, faculdade, pegar ônibus, estágio, encontrar meu pai, esperar, buscar o carro no estacionamento, trânsito, casa, rua com o cachorro, casa, banho, cama, acordar, tomar café, escovar os dentes... isso vai acabar comigo! não, eu preciso quebrar essa rotina. não consigo esperar até o fim de semana. alguém me resgate!!

terça-feira, agosto 16, 2005

Bom, na verdade...

"oi, e aí! tudo bom?". "tudo bem.".eu minto. nem sempre está tudo bem, mas imagina se eu começasse a dizer tudo o que anda me incomodando. "na verdade, não está tudo bem. sabe o que é? eu ando meio chateado com isso e isso e isso...". as pessoas perguntam se está tudo bem como se fosse um ponto no fim da frase. elas não querem nem saber o que há de errado. somos regidos pela pressa, pela fugacidade. nada perdura, nada é perene. talvez porque realmente nada foi feito para resistir. coisas duradouras costumam enjoar, perdem a graça e precisam ser repostas, substituídas. ou até mesmo esquecidas. as pessoas morrem, não é mesmo? real ou de maneira metafórica, todos acabamos sendo enterrados um belo dia.
eu não ando muito satisfeito com aquela história. não quero nem discorrer mais sobre o assunto. já disse que agora espero algo da parte dela. eu não me sinto à vontade para tornar a insistir. e não o farei tão cedo.
terminei o livro que estava lendo desde o começo das férias, se não me engano. gostei muito, assim como o outro livro do Pedro Juan Gutiérrez que já havia lido, "O Insaciável Homem-Aranha". "Trilogia" é mais completo, mais chocante. o Brasil parece o paraíso agora. não, não é esse tipo de visão que devo ter. devo me reter em Cuba. miséria, falta de esperança. seres tentando sobreviver como verdadeiros animais. fome, descrença. pensando melhor, não posso me dar ao luxo de dizer que "não está tudo bem".

(ouvindo 'codeseven - the rescue')

segunda-feira, agosto 15, 2005

Eu em stand-by

ela me contaminou com a indiferença. pelo menos eu deveria estar contaminado. é uma situação mais cômoda onde não existem expectativas nem esperança. se acontecer, legal. se não acontecer, não faz falta. eu tenho que me contaminar. pra mim faz falta. ela me elogia, me prende e me entorpece, mas não concretiza suas falas. não sei, sinceramente. devo ficar mais distante (ainda), se é que isso é possível. é, definitivamente ainda não estou contaminado.
isso vai contra toda a minha vontade. eu não quero carregar nas costas tudo sozinho. são duas bocas que se beijam, são duas mãos distintas que se tocam. não estou só. na verdade, estou. sinto-me perdido e encarcerado numa jaula de plástico. basta eu ter um pingo de força de vontade para destruí-la e me libertar, mas ao mesmo tempo eu tenho calma. eu espero. mas esperar cansa e é algo que eu detesto. esperar é deixar a vida ir embora sem perceber. eu percebo e por isso odeio esperar. é, estou quase metendo um pontapé nessas barras de plástico.
é difícil suportar esse tipo de situação quando ainda se está fraco. preciso de um tempo para respirar e ver se ela quer de fato dividir o mesmo ar comigo. depende só dela. eu já fiz minha parte. é como se sentir deixado de lado, em stand-by.

(ouvindo 'slow coming day - farewell to the familiar')

quinta-feira, agosto 11, 2005

Atrasos em minha vida

ainda me iludo sempre que chego sozinho ao hall de elevadores do bloco A de Furnas. acredito que conseguirei subir sozinho, mas é incrível como as pessoas brotam de todos os lados. hoje eu contei. em apenas 8 segundos já havia aparecido mais 5 pessoas além de mim no hall. eu trabalho no décimo primeiro andar de um prédio de dezesseis. é realmente muito chato ter que subir no elevador com a certeza de que 90% das pessoas que estão comigo saltarão em andares abaixo do meu. torna-se uma viagem. sem contar que o parar e abrir e fechar das portas do elevador dura algo em torno de 10 segundos. quando não se está fazendo nada, apenas esperando, 10 segundos parecem durar o tempo de uma missa.
eu apenas desisto. quando vi que o primeiro elevador havia chegado e todos os presentes corriam para ele, travei meus pés no chão e apenas observei. sabia que não demoraria muito e um outro chegaria ao térreo. e chegou. entrei absolutamente sozinho no elevador, mas vi que alguém já se aproximava. ok, eu divido meu transporte com mais uma pessoa, sem problemas. apenas mais uma! mas logo embarcaram mais três. comprovando minha teoria, uma delas saltou no quinto, duas no sétimo e a última no nono.
a espera é algo que me aturde. é jogar a vida fora. a não ser que esta espera seja acompanhada de alguma pessoa interessante, ou cerveja. ou um cigarro. algumas pessoas contam o tempo de espera baseando-se em quantos cigarros fumam durante tanto tempo. "ah, o ônibus nem demorou tanto. só fumei dois cigarros no ponto e ele chegou". já faz parte da rotina. eu canto. sempre cantarolo alguma música enquanto espero. batuco, pareço meio louco. já cansei de ver pessoas me contemplando. será que só eu canto sozinho na rua? acho muito pouco provável.
para passar o tempo aqui, sentado, sem ter muito o que fazer, resolvi dar uma folheada na revista Pilotis, da PUC. catei por lá hoje. uma bosta, como sempre. pessoas plásticas demais, todas iguais, posando para fotos com suas mãozinhas fazendo gestos estúpidos. caras e bocas estúpidas. ainda rola uma coluna onde um amigo meu escreve coisas bonitas e bem escritas. registros emocionais. deveria funcionar mais ou menos como isso aqui, mas ele enrola demais. muitas pessoas acham que escrever rebuscadamente é mais bonito, é mais sincero. uma pena. acabei me perdendo no texto dele com tantas palavras proparoxítonas e outras tantas terminadas em "mente" e "al". reli e entendi o que ele quis dizer, mas soou tão falso, superficial. não consegui remontar a situação que ele descreveu. não com tanta emoção. remontei como uma gravura, e não como um filme. tem horas que um "merda" cai bem melhor que um "droga", "oh não!". como tem poder essa palavra!
ah, esperar é um saco. e eu ainda tenho que ficar aqui pelo menos mais vinte minutos para cumprir as quatro horas diárias de estágio. dê-me licença. lá, lá, lá, lá...

(ouvindo 'broken social scene - you forgot it in people')

terça-feira, agosto 09, 2005

Introspecções

estou de volta à rotina. aulas de manhã e estágio à tarde. meu curso, que tomaria também minha noite, foi cancelado. não sei se devo comemorar ou ficar triste. eu tava querendo fazer esse curso. deixa pra próxima.
saí com pressa da faculdade mas consegui chegar cedo a Furnas. na verdade, passei antes no Spoleto pra almoçar. dei o tremendo azar de pegar uma coroa meio confusa na minha frente. ela não sabia exatamente o que pedir. enrolou demais. parecia que havia imposto a regra de não repetir um ingrediente sequer e assim ficou tentando lembrar do que mais gostava. o que mais ela poderia enfiar lá dentro para deixar seu espaguete mais saboroso. bah. eu sempre peço a mesma merda. e sempre exagero na pimenta.
almoçar sozinho pode ser bastante interessante. eu gosto muito de ter companhia no almoço também, até prefiro, mas às vezes precisamos fazer certas coisas sozinhos. não necessariamente "sozinhos", mas tendo apenas nossos pensamentos como acompanhantes. introspecções são sempre válidas, não importa por quanto tempo durem. fiz uma breve análise da minha vida no atual momento. acho que o saldo está positivo. prefiro achar que sim, até alguém me provar o contrário. e sempre tem um filho da puta que consegue provar. que ele fique mais um tempo entocado e não me aporrinhe.
tentei de todas as maneiras espantar o sono. em frente a esse computador, estático, me mordo de tédio. preciso inventar algum tipo de passatempo, porém, se a chefe me pega sem estar digitando qualquer besteira ou folheando quaisquer papéis, ela me agarra e me manda engraxar sapatos e lustrar móveis. metáforas, claro. bom, nem tanto assim. afinal, consegui permanecer com os olhos abertos. a cabeça longe. tive tarefas para executar e isso preencheu uma parte da minha tarde por aqui.
as noite estão livres, então. pelo menos, por enquanto. gostaria de ocupá-las. preciso esperar a certeza.

(ouvindo 'hot water music - no division')

segunda-feira, agosto 08, 2005

Fuçaram minha vida

estava fuçando a vida de uma amiga minha agora ha pouco. ela falava exatamente sobre fuçar a vida dos outros. coisa mais sem sentido. eu andei descobrindo coisas que não gostaria de ter descoberto justamente por essa vontade inexplicável de querer saber o que não se deve. deixa pra lá, melhor largar quieto num canto e deixar morrer. já morreu. não posso cair nessa tentação. ela que cuide da vida dela, e eu tenho que dar um jeito de arrumar a minha.
a verdade é que eu já sei como arrumá-la, mas não sei se irei conseguir. preciso de ajuda. preciso de tempo, coragem e paciência. e sorte. tudo se resume a isso. acho que já foi dado o início. o problema é que não podemos prever o que vem pela frente. essa estrada é muito esburacada, com curvas acentuadas. antes eu ainda tinha um obstáculo muito grande para driblar, mas a vida tratou de removê-lo do caminho. a vida realmente nos surpreende. esse obstáculo não poderia ser removido apenas com palavras.
sexta-feira poderia ter sido a noite perfeita. foi tudo assim até as 6 horas da manhã. voltei ao carro e haviam roubado meu rádio. não tive reação. entrei no carro e tentei realizar o que se passava. parei, olhei pra ela e não soube o que dizer. ela também não. de súbito, levantei, larguei um palavrão e abri a mala. o sangue fervendo. ainda estava lá. minha guitarra estava lá. aliviei. voltei ao carro e me lembrei do dia em que comprei o rádio. foi um presente de aniversário. eu gostava muito dele, mas de alguma forma eu sabia que não iria durar. essa cidade me sufoca. a vontade é ir embora e nunca mais voltar, mas minha vida é aqui, e é tarde para se fugir. eu fujo para essas linhas. tento fazer diariamente. e faço, mas não por escrito. a viagem de volta foi em silêncio, ensurdecedor e inquietante.
vou tentar não me esquentar mais com isso. já fiquei muito triste. tenho ainda mais motivos para não mais fuçar a vida dos outros. quando fuçam a minha, eu fico puto.

(ouvindo 'maritime - glass floor')

sexta-feira, agosto 05, 2005

Uma velha história

acordei meio zonzo hoje. atrasado. bebi muita cerveja na noite passada. estava pelo Leblon, com grandes amigos. ela passou na minha frente, mas não me viu. eu estava no bar, sentado. só a vi de costas e achei melhor não chamar. nem me aproximar. eu estava esperando ela retornar minha ligação e sabia que o faria. eu também sabia o que ela iria dizer.
estava cansada e não iria sair. eu precisava saber se isso era algum tipo de desculpa constante e se eu estava sendo inconveniente. precisava saber se era melhor deixar tudo de lado. ela me deu uma luz, enfim. disse que eu não estava sendo chato, e que eu poderia ligar quando quisesse. ótimo. andava pensando muito sobre essa situação e agora parece que terei algum sossego.
talvez todo aquele peso tenha verdadeiramente abandonado meu peito. mais parecia uma garra arranhando meu coração, fazendo aquele som rascante, agoniante e ensurdecedor. se toda aquela carga emocional ainda me habitasse, eu não conseguiria pensar em outra garota direito. mas bem, essa é uma velha história. de vez em quando alguns baús são abertos e redescobrimos sonhos há muito enterrados, empoeirados. sonhos esquecidos e soterrados por outras vontades, pensamentos, idades, beijos, lugares, etc. tudo tem o seu tempo, sua época para acontecer, e não é bom contrariar esta lei. acho que relacionamentos que tive há muito tempo atrás talvez dessem mais certo hoje em dia. o tempo é responsável por muita coisa, se não por todas elas. muitas coisas mudam com ele, mas outras são conservadas. ah, eu conservei essa vontade. eu nunca imaginei que fosse provável, nem possível. talvez eu tenha dado sorte. não podemos dar azar sempre.