sexta-feira, outubro 07, 2005

O dia dos renegados

alguém mais andou olhando pra cima nos últimos dois dias e se sentiu asfixiado? parece que um véu cinzento foi posto sobre a cidade com o intuito de acabar com seus moradores. acabar mesmo. não se sabe se vai chover agora, daqui há dois minutos, amanhã ou se já está chovendo mas ainda não te acertaram. eu gostaria de saber o que se passa lá em cima.
eu olho pra cima e sinto minha garganta inflar, como quem engole um angu gelado completamente contra sua vontade. eu, particularmente, detesto angu, e ele me traz más lembranças. eu lembro de um episódio ocorrido há uns 15 ou 16 anos atrás, quando minha mãe obrigava - sem êxito – a mim e à minha irmã a comer angu. lembro da cena com perfeição... os dois sentados no chão do meu quarto com um prato de angu na frente. sei que após algum tempo de insistência, minha mãe perdeu a paciência e enfiou a nossa cara no prato. hahaha, hoje eu me divirto muito com isso, mas na hora eu chorei demais. era angu até no cabelo.
é estranho como coisas que no momento são péssimas podem se tornar futuras anedotas. uma diarréia inconveniente no meio da rua é uma forte candidata a ser um chiste futuro! um tombo em lugar público, uma gafe com um desconhecido, uma saia justa, um pé-na-bunda. as coisas passam e as emoções são varridas. a maioria das emoções não é indelével. parece que cada uma delas tem um certo momento para aflorar, e um certo momento para desvanecer. elas pertencem a um certo nó dado pelo destino, se alguém acredita nisso.
eu gosto de pensar assim, que a vida da gente já está traçada em algum papelzinho de lembrete que alguém acima deste véu cinzento carrega no bolso. o problema é que esses papéis são relativamente pequenos, e quando ele já está todo rabiscado é preciso continuar escrevendo em um outro. mas são muitas pessoas para se cuidar, e eventualmente, algumas milhares são esquecidas de ser atualizadas diariamente. e somem, às vezes sem motivo aparente. caem sem tropeçar e se vão. não é por mal. todos nós esquecemos de coisas, importantes ou não. importante pra mim não quer dizer que seja importante pra você, etc. e quando o cara responsável pela atualização de nossas vidas se toca de que é realmente bastante esquecido, ele chora. chora mais por uns do que por outros. maldito dia de finados, em que o rapaz sempre é obrigado a lembrar dos renegados por ele.

(ouvindo 'rescue - flamingo minutes')

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