“sabe, já faz tempo que eu escrevo letras de músicas. já fui muito ruim, tentava disfarçar escrevendo em inglês, que você pode escrever qualquer porcaria que fica legal, ainda mais quando se trata de rock, né? deve ser porque o rock foi feito em inglês e isso deixa as coisas muito mais fáceis. de repente eu percebi que talvez fosse legal arriscar rabiscar alguma coisa em português, afinal, eu passei a maior parte da minha vida fazendo redações para o colégio, todas escritas em português, claro, com exceção das redações das aulas de inglês que eu achava um saco, bem contraditório, eu sei. eu também não via nenhuma chance da minha banda se dar bem por aqui cantando em inglês, nem mesmo lá fora, éramos muito novinhos e nem tão bons. bem, escrevi umas músicas em português e foi difícil essa transição, usei muitas palavras escrotas como “pirraça”, “vacilou”, e isso não cai bem numa música de rock, mesmo sendo bastante sincero e tal, mas o pessoal gostou e gosta até hoje. eu não gosto mais. como tudo, com prática você acaba melhorando e acho que isso realmente aconteceu comigo, comecei a pensar mais em quais palavras escrever, tal como Hemingway, não é? pelo menos é o que dizem, que Hemingway ficava horas pensando na frase perfeita, escrevia e reescrevia a mesma frase milhões de vezes até ficar do jeito que ele queria. não, não chego a tanto.”
“...”
“de uns tempos pra cá, eu comecei a escrever textos aleatórios, sem muito compromisso, quer dizer, o único compromisso é comigo mesmo e minha autocrítica, e tomei o hábito de ler. tenho lido muito, devo ter lido mais de trinta livros esse ano, provavelmente. assim se aprende, assim você adiciona palavras ao seu vocabulário e, pô, eu decidi aprender a falar a minha própria língua, isso é estranho mas totalmente compreensível.”
“...”
“estar em contato durante mais tempo com as palavras ajuda muito a eloqüência, você não fica “moscando” meia hora tentando lembrar tal palavra, você simplesmente a substitui por outra, isso é muito legal. tenho muita admiração por um professor que tive na faculdade, o cara nunca parava de falar, digo, nunca emperrava com aqueles “ééééééé”, “aaaahhhmmmm”, “como é mesmo?”. o cara tinha palavra pra tudo!”
“...”
“pois então, eu tava fazendo a grade de horário na faculdade e tinha que pegar uma optativa, eletiva, sei lá, aí vi ‘Oficina de Texto’ e pesquisei sobre a matéria, perguntei para alguns amigos se eles já haviam feito essa cadeira, e alguns já haviam feito e dividiram opiniões. os jornalistas gostaram, a maioria dos publicitários não, porque diziam que era muito voltado para jornalismo. naturalmente, eu pensei. decidi arriscar e, agora que estou praticamente terminando a matéria, tenho também uma opinião positiva, apesar de estar me formando em publicidade período que vem.”
“aprendi, ou pelo menos exercitei mais os meus textos jornalísticos, mesmo não curtindo muito essa onda, mas com certeza é uma soma às minhas habilidades, hahaha!, ao mesmo tempo em que, no momento em que a professora liberou a possibilidade de escrevermos crônicas e textos livres, eu passei a escrever o dobro de textos que escrevia antes, espremendo o cérebro para arranjar assuntos interessantes – e muitas vezes não arranjei – e lidando diretamente com a criatividade, algo que eu prezo muito e considero uma das mais valiosas características de um ser humano.”
“mesmo já escrevendo letras em português há 6 anos, esta aula me incentivou a esmerá-las ainda mais, a fugir do óbvio e a driblar uma certa crise de inspiração que me assolava há uns meses, hehehe! agora já estou tentando bolar um jeito de escrever um texto de trás pra frente, de baixo pra cima. o problema é fazer com que ele tenha algum sentido! a língua portuguesa como um origami, eu devo ta ficando doente, um pouco mais doente.”
“...”
“sim, claro, escrevemos algumas resenhas e releases também, engraçado, porque também é algo que eu costumava fazer direto. enquanto o pessoal tava naquela febre de fotolog, eu fiz um pra mim e comecei a resenhar alguns CDs que tenho na minha coleção. a galera adorou e muita gente passou a conhecer algumas bandas por causa do meu fotolog de resenhas. releases, eu já enjoei de escrever releases para as minhas bandas, aliás, o último que eu escrevi eu gostei muito. é um release interessante porque conta praticamente toda a história da banda num texto sem pontos finais, dividido somente por vírgulas e alguns parênteses, o que dá mais velocidade ao texto e prende bem mais a atenção de quem lê. acho isso legal, fugir dos padrões, bater na cara do óbvio e do modelo. eu espero que outras pessoas que tenham feito essa aula de Oficina de Texto tenham pulado esse muro também. o problema é que, cá pra nós, jornalistas, em geral, são muito caretas e metódicos, muito disciplinados. falo mesmo!”
quinta-feira, novembro 23, 2006
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