sexta-feira, outubro 09, 2009

Monografia 2007

quando concluí meu curso de comunicação social com habilitação em publicidade e propaganda pela PUC-Rio, entreguei como projeto final um livro de contos e um ensaio sobre a teoria do conto (short story). para fazer o download, é só clicar no link abaixo:

http://www.mediafire.com/download.php?mizwym0kwmz

quinta-feira, julho 02, 2009

"..." ou "3 Pontos" ou "Reticências"

"Noite. Por volta de 23:30. Algum bar ou boate, com muita gente arrumada, perfumada e aquela coisa toda, bebida rolando e o pessoal falando besteira pelos cotovelos. São Paulo, Rio de Janeiro, não sei, alguma grande capital. Um homem e uma mulher. Um rapaz e uma moça, uns vinte e tantos anos, menos, vinte. Ele é mais velho que ela, pouquinho mais. Estão na fila, esperando para entrar no tal lugar. Ele olha mas ela não percebe. Está conversando com as amigas, gesticulando, tagarelando, ignorando todos os desconhecidos. Linda, jovem, sensual, saia, pernas, cintura fina, salto alto. Se fosse loira seria muito óbvio e estereotipado, mas é morena. Ri, sorri e ajeita seu tomara-que-caia inúmeras vezes. Ele percebe e torce para que realmente caia. Coça a barba e dá um risinho abafado para si mesmo, olha para o chão, para o lado, para ela, para trás, se desculpa pelo esbarrão com alguém.
A fila anda e ela entra. A dona do pedaço. Após 7 ou 8 pessoas ele entra também..."
"É importante decidir. Seria uma boate ou um bar?"
"O bar de uma boate, que tal?"
"É, é..."
"Pois então, a música está alta, ele entra e imediatamente procura sua presa. Encontra um amigo, mas trata de imediatamente se desvencilhar deste empecilho. Decide comprar algo para beber. Ela está no bar."
"Sim!"
"Ele pede uma cerveja. Enquanto dá o primeiro gole, espia de lado e vê a moça ficar sozinha. Suas amigas vão dançar enquanto ela revolve o conteúdo da bolsa. Ele se aproxima e pergunta se pode lhe pagar uma cerveja. Ela levanta o rosto, sorri e diz que não toma cerveja. Prefere uma caipirinha ou uma tequila."
"Ou uma margarita!"
"Margarita é legal também. Gosta de margarita? Sim, ela gosta e aceita. Ele pede. Pergunta seu nome. Ela responde sem perguntar o dele. Ele se apresenta. Faz faculdade? De que? Ah, que legal, conheço fulano que também estuda lá, você o conhece? Risos. Mais algumas trivialidades, mais alguns sorrisos. Chega o drinque dela. Veio sozinha? Legal, legal. E então ela atende o celular. É uma das amigas que estão na boate. Ele apenas observa. Unhas longas, pintadas estilo francesinha, perfume importado, cabelo longo e brilhante. Desliga. Oi de novo. Ela prova o drinque e trinca os olhos. Escorre uma lágrima. Ele a seca. Não está boa? Muito forte? Ela diz que está ótima, que assim que é bom, forte. Respira fundo e dá outra golada. O que faz uma bela menina como ela numa boate? Veio para dançar ou pra procurar alguém? 'Vim pra dançar, me divertir', algumas gírias, um jeitinho meio chato de falar até então imperceptível. Termina o drinque e pede outro, deste vez por sua conta. Ele acompanha com a cerveja e se apóia no balcão.
O telefone dela toca outra vez. Ela pega o aparelho cheio de bichinhos pendurados, e atende com um 'alô' meloso. As amigas mais uma vez. Desliga. Pega a nova margarita, lambe a borda do copo como um pirulito e enche a boca com o álcool. Em dois goles, o líquido some. Ele se endireita e se intimida. Puxa mais um assunto pelo qual ela não se interessa muito. Dura pouco. Ela pergunta as horas e pede licença para ir ao banheiro. Sem problemas, ele espera. Ela demora muito para voltar e então ele percebe que ela está conversando com outro cara do outro lado do bar. Está bebendo uma caipirinha, mexendo o gelo e o limão com um canudinho azul. Ele pede outra cerveja e deixa a menina pra lá."
"Sim, e aí?"
"É, aí tem que bolar o resto."
"O resto? O que você bolou é o resto. Você não disse nada!"
"Bom, descrevi a personalidade da garota."
"Você acha?"
"Sim, eu acho. Ela é uma dessas meninas fúteis de boate que não pensam em muita coisa e só querem beber às custas dos caras."
"Não achei ela fútil."
"Não?"
"Não. Achei ela bastante inteligente."
"O quê? Por que?"
"Porque sim, oras. Ela bebe de graça e não liga pros caras. Tá ali só pra se divertir e consegue."
"Ah, e você acha a atitude dela bastante válida, muito inteligente?"
"Uhum."
"Meu Deus, você acha isso normal?"
"Acho sim."
"Em que mundo eu vivo? Será que só eu acho isso uma futilidade?"
"Defina fútil."
"Fútilo, fútil! Pessoas frívolas, que pensam em coisas que não têm a menor importância..."
"...defina importância."
"Bom, coisas com cabimento, sei lá, coisas importantes, todo mundo sabe como são."
"Pelo visto, você não sabe. É porque a importância é relativa."
"Que seja. Na minha opinião, os ideais dessa menina não têm a menor importância."
"A sua história é que não tem a menor importância. O que você quer dizer com ela?"
"Queria descrever a futilidade moderna, a fugacidade dos relacionamentos, a falta de importância dada a isso tudo."
"Ninguém vai ler isso aí porque é fútil."
"Fútil? É fútil encarar e falar da vida moderna?"
"É, não tem importância. Ninguém quer saber."
"Ah, nossa..."

domingo, junho 07, 2009

Acho que fui vítima da injustiça. Vítima também de um ato covarde, covardia consequente da inaptidão ou incompetência de uma pessoa em solucionar um problema que ela mesma agravou. Se sentiu aflita num roubo de ônibus e, desesperada, quebrou uma vidraça para tentar escapar. Os demais passageiros ficaram atônitos.
Eu gosto de lidar com pessoas mais "humanas", daquelas que você olha nos olhos e elas, inconscientemente, te convidam a nadar na imensidão de alguma coisa que você passa horas tentando descobrir o que é. Deu pra entender? Aquelas pessoas que perguntam "tá tudo bem" e uma resposta do tipo "sim, e você?" não é o suficiente.
Sei que o que aconteceu acabou sendo bom. Senti uma garfada folgada no meu prato, mas é isso que acontece quando somos aquele tipo de gente que sempre se serve de forma comedida.

segunda-feira, junho 01, 2009

Trecho de "Alta Fidelidade"

"É tão errado assim querer ficar em casa com sua coleção de discos? Colecionar discos não é como colecionar selos, ou cartelas de chope, ou dedais antigos. Há todo um mundo aqui, um mundo melhor, mais sujo, mais violento, mais pacífico, mais colorido, mais espalhafatoso, mais perigoso, mais amoroso do que o mundo no qual vivo; há história e geografia e poesia e incontáveis outras coisas que eu deveria ter estudado na escola, incluindo música." - Nick Hornby

sábado, abril 11, 2009

Trecho de "O Baile" (Firebirds)

"O que adianta sonhar com aventuras se você dá as costas à primeira que lhe aparece?" - Delia Sherman

sábado, março 21, 2009

Trechos de "Os Subterrâneos" - 02

"os detalhes são a vida da coisa"

sexta-feira, março 20, 2009

Trechos de "Os Subterrâneos" - 01

"..., a gente via os navios, lá fora LIVRE pra andar pra qualquer lado, como isso é maravilhoso e a gente nunca vê isso por causa das nossas preocupaçõezinhas, somos uns bobalhões, como essas crianças mimadas cegas detestáveis emburradas só porque... não dão... pra elas... todas... as balas... que elas querem,..." - Mardou Fox

"- nenhuma menina jamais me havia comovido com uma história de sofrimento espiritual a alma dela transparecendo tão lindamente radiante como um anjo perambulando no inferno e o inferno eram as mesmas ruas que eu perambulava procurando, procurando alguém como ela sem nunca imaginar a escuridão e o mistério e eventualidade de nosso encontro na eternidade..." - Jack Kerouac

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Aula (escrevi na época da PUC)

eles chegam em bando. geralmente atrasados, trôpegos, avoados, nunca silenciosos. hoje invadiram a sala mais cedo.
eu já estava sentado no meu canto de costume, folheando meu Bukowski e pensando se conseguiria sobreviver a mais uma maldita aula com esses alunos de direito. rostos, roupas e hábitos iguais. sou um ponto-e-vírgula entre essas palavras ôcas, uma pausa no jogo infantil, na fase mais difícil. e o tempo corre como gostaria eu de estar correndo. pra fora daqui.
tem uma garota morena, alta, que sempre me olha. eu a observo. uma mistura estranha de patricinha com alguma outra coisa, bonitinha até. me lembra a ex-namorada de um amigo, logo uma que não é muito digna de ser lembrada. quase sempre ela vem e se senta nas minhas proximidades. parece querer chamar a atenção. não sei se só a minha, mas parece querer chamar alguma. qualquer dia eu pisco pra ela e lhe arranco um sorriso.
muito barulho ao redor. largo meu livro de lado e me dedico à paciência. uma outra menina começa a cantar umas músicas de pagode, batucando na mesa. o inferno é belo e bem mais silencioso. lá deve ser proibido esse tipo de coisa.
aqui eles têm albuns de figurinhas da Copa. muitos deles. uma espécie de desejo infantil reprimido, guardado no âmago destes recém-adultos. um moleque com a cara cheia de espinha sacou o primeiro albinho de sua mochila, se sentou no chão do pilotis e se tornou um herói. agora todos podem trocar figurinhas, sem medo e preconceito.
assisto mais dois alunos de minha tribo, a comunicação. são duas meninas, e não estão nada comunicativas. comme moi.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Encontrei uns cadernos antigos aqui em casa. Praticamente todos tinham alguma coisa escrita que poderia vir a se tornar uma música. A maioria nunca saiu do papel, literalmente. Eis uma coletânia de frases achadas:

-1-
Por que você diz chegar a hora de dizer
"nunca mais vou te ver"
quando ainda é cedo demais para partir?
Puxando um cigarro, sentou-se no chão
enconstando-se em uma parede.
Lembrou dos dias em companhia
de quem o fez viver.
-"A natureza é injusta, digamos assim.
Levou com ela um pouco de mim."
Um beijo na testa e um aperto na mão
(levando esta ao peito)
fizeram-no sentir a falta imediata
e a tortura que será ser... só... sem...

-2-
Rasguei minhas sombras ao saber que elas eram projetadas
pelo brilho que roubou de mim.
Vendei meus olhos por não fazer questão de ver sua
ascenção às minhas custas.
E agora tudo vai ser seu.
Meus feitos não são mais meus.
Seque minhas lãgrimas com seus sorrisos
e leve embora
sua falta de moral.

-3-
Gritos ao ar.
É uma pena que minhas idéias não possam atingir
aqueles que as pedem em silêncio.
Imagens disformes valem mais que mil palavras,
pois nem com mil palavras eu te faria compreender
que seus olhos emudeceram-te.

-4-
Se soubesse o que é viver
não lamentaria a dor de deixar de ser.

-5-
Preso aos meus próprios sentimentos de
compaixão e consideração.
Queria poder me libertar e voltar a sorrir.
Tenho todas as cartas em minhas mãos.
Mas não quero ter que afogar
num mar de águar turvas
alguém que nunca mereceu, nem merecerá
algum mau vindo de mim.
São desejos pálidos por falta de luz,
escondidos num certo porão.
Agora ela quer lê-los e reescrever
tudo o que o tempo manchou.
Espero que saiba o que faz.
A incerteza pode destruir
todas as páginas que eu escrevi.

-6-
Me consiga um lugar mais perto de você.
Preciso te contar.
Comecei a escrever um monte de frases que poderiam lhe calar,
fazer você parar um tempo pra pensar
se eu sou o mesmo no espelho
e nas palavras que escutas ao me ouvir falar.
Mas desisti,
amassei com as mãos a única chance que tinha de ser honesto.
Foi pro lixo toda coragem que me botou de pé.
Achei melhor deixar que vejas por si só.
Irá chegar o dia em que irá aprender,
levar na cara, olhar pros lados e não ver a sombra
de ninguém, pois...
... já pensou?
Quem iria lhe ajudar?
Você já ouviu alguém que não você?

segunda-feira, agosto 04, 2008

Foi o médico quem disse...

ela entrou primeiro,

uns 40 e tantos anos e peitos enormes.

um deles era torto.

silicone.

muito dele.

depois entrou o marido

e então a porta do elevador se fechou.


"o médico falou que você não pode fazer ginástica",

ele disse,

"só se eu não me sentir bem, mas eu tô ótima",

ela disse.

"não pode",

"eu vou fazer ginástica, sim",

ela afirmou.


olhei pra baixo.

ela tinha pés enrugados,

tenebrosos e curtos dedos velhos

que sustentavam uma velha garotona.


em cima em cima,

embaixo em baixa.


"o médico disse pra você não fazer ginástica".

"aaawwwhhh, não faz isso comigo, nããão",

ela miou.


o casal saltou na garagem

e a ascensorista se pôs a rir

e eu ri e

a outra moça que também estava no elevador também riu.


"nunca vi... essa deve puxar o peso mais pesado da academia",

a ascensorista desabafou.


eu ri,

a outra moça riu

e a ascensorista riu.

todos rimos

mas no fundo

queríamos mesmo era chorar.

terça-feira, abril 15, 2008

O início

*este texto foi escrito para a edição de lançamento da Revista Zero, um projeto idealizado por um amigo. a idéia era utilizar os conceitos de "novo", "início", "primeiros passos", etc...*

o início. a inércia. tudo parte de um incentivo, de um empurrão ou de um "porra, mermão, faz logo essa merda". é mais ou menos por aí que começa minha pequena história.

os pais de Hiulio sempre quiseram ter um filho, mas a Sra. Narfz não conseguia engravidar. após uma cirurgia, perto de completar 10 anos de casamento com o Sr. Narfz, a futura mãe de Hiulio viu seu sonho tornar-se real e foi presenteada com o aparecimento de um muleque em seu ventre, o seu muleque.

nada é tão simples quanto parece, então o garoto decidiu se enforcar com o cordão umbilical poucos meses antes da previsão natal - "será que o menino terá tendências suicidas, meu pai?" - e teve de ser arrastado mais cedo para o mundo daqui de fora, decisão tão cruel e prematura que fez o menino chorar e fechar a cara pelos próximos 3 anos. o reveillón de 84 jamais seria esquecido pelos presentes, a não ser devido a uma possível amnésia alcóolica.

o singelo fato de ter conseguido nascer foi encarado como uma dádiva, uma concessão sob alguma rude ordem superior e os olhos de um supervisor atencioso. uma mijada fora do penico e BUM!, tá fora, amigão. no entanto, Hiulio nunca fez muita questão de seguir as regras. levava a arte da argumentação nas veias, o inconformismo nos olhos e a ânsia pelo ideal em seus atos, mas sem deixar de agradecer a oportunidade de ser mais um nesta terra injusta em meio a tantos oprimidos.

por que injusta? até o presente momento ela fora bastante generosa com ele. nunca passou por apertos financeiros muito fortes, sempre teve o que comer e o que vestir, amigos e belas namoradas, uma boa família... mas sentia-se diferente, comovido com os erros ao redor. a cidade lembrava-lhe um cenário teatral amarelado, mofado, rasgado e imundo, claustrofóbico.

a compaixão é uma fiel parceira que lhe mareja os olhos quando simula a infelicidade alheia. imaginou-se tomando banho debaixo de uma daquelas calhas quebradas, caçando algum resto de comida ou um copo com um restinho de açaí no fundo de uma lixeira, tentando ajustar uma bituca de cigarro amassada entre dois dentes podres em sua boca desdentada, falando sozinho com os braços erguidos numa esquina qualquer, sendo ignorado, repudiado e despertando asco em todos que passavam por ele. é preciso vencer, no entanto, a conseqüência da derrota não deveria ser esta infelicidade e humilhação brutal.

conseguiu livrar-se do trânsito e deixou sua divagação evaporar. saltou do carro e olhou ao redor do estacionamento, um enorme pátio com chão de brita. um raio de sol escapou por entre as folhas das árvores e lhe tocou o rosto. bateu a porta do carro e desceu a rua. no caminho para o trabalho, ouviu o canto óbvio, estridente e distante de uma cigarra. torceu os lábios e sorriu. tudo parecia estar bem.

sábado, março 03, 2007

-

hoje eu voltei ao banco para pagar 3 contas. não foi ela quem me atendeu, mas eu quase vi seu mamilo.

"- Diz aos teus homens que eu podia ter-te levado para a cama e fazer-te desgostar para sempre dos pobres diabos da sua tribo! - disse-lhe ele. - Mas tenho coisas mais importantes para fazer!"
O Construtor de Universos // Philip Jose Farmer

terça-feira, janeiro 23, 2007

Veja você como as coisas são complicadas

já passava das 3 da tarde. o telefone tocou e Julio atendeu com uma voz seca, um pouco encatarrada, típica de um dia de ressaca:
- fala, rapaz!
- opa, tudo bom?
- tudo certo. tava doidão ontem, hein?
- tava mesmo.
- que horas você saiu de lá?
- quinze pras cinco da manhã. voltei com o carro abarrotado de mulé.
- hahaha, sério?
- é. cara, foi muito bizarro! ofereci carona pra Ângela que agora é minha vizinha. ela perguntou se dava pra levar também a Pérola, a Gabi e uma amiga dela de Brasília.
- que isso, rapaz!!! só coisa boa, hein?
- mas a Gabi não foi...
- logo ela...
- é, aí acabei trazendo a Luiza no lugar da Gabi, sabe quem é?
- ah, acho que sim.
- pois é, então eu tava bem tranqüilo, tudo bem, tava bêbado mas tava consciente de tudo o que eu tava fazendo, levei as quatro no carro e elas falando um monte de besteira. tava chovendo e elas ficaram com medo de que eu batesse o carro. eu disse que não, falei pra elas relaxarem, eu já estou mais do que acostumado a dirigir bêbado. ao contrário de muita gente, quando eu bebo eu dirijo mais devagar e pareço redobrar a atenção.
- faz bem.
- fiquei muito orgulhoso de mim, não fiz nenhuma gracinha com elas, tava ali dando uma de amiguinho mesmo, achei até estranho. quando cheguei na porta da minha garagem, elas falaram que estavam com fome. eu também tava, minha barriga tava roncando bem alto. a Ângela disse que na casa dela tava rolando umas panquecas e que podia-se fazer um miojão. me convidei pra ir também e foi o que aconteceu.
- você foi junto?
- fui. no melhor estilo "dormindo com o inimigo", saca? eu, ali, com 2 meninas que não conheço muito bem e 2 que não conheço mesmo! batendo papo na cozinha, comendo panqueca requentada, passando a mão no cachorro e ouvindo elas fofocarem. foi uma boa experiência.
- mas e aí?
- e aí que não rolou nada, tô bastante orgulhoso. não tenho vontade de ficar com essas meninas, eu já tenho uma namorada e tanto.
- bonito.
- tô feliz, não quero colocar em risco meu namoro fazendo uma besteira sem sentido. mas foi muito surreal esta noite, entende? houve um momento em que eu parei e fiquei sóbrio por uns segundos, me enxerguei em terceira pessoa como num jogo de videogame, me vi ali sentando num ambiente que não me era familiar e perguntei a mim mesmo que porra eu tava fazendo sentado naquela cozinha branca? e a tal menina de Brasília pediu arrego, sentou no chão e abriu as pernas de saia, nem assim eu consegui olhar, claro que eu olhei, mas não consegui manter, saca?
- ih, você tá casado!
- ela não era nada demais, mas era uma xoxota na minha frente, e eu tava bêbado, e nem assim eu tirei proveito como costumava tirar. achei que já era hora de ir embora. comi o que tinha que comer e me despedi delas. a Ângela me levou na porta e não pude deixar de notar a imensa coleção de livros da mãe dela. veja só, eu, numa casa com 4 meninas trêbadas, pensando em devorar os livros! ai, ai...
- hahaha!
- comecei a procurar o que me interessava e achei. tava quase todo mundo lá, Clarice, Buka, Henry Miller e Raymond Chandler! achei incrível, várias edições antigas.
- legal. mas então, você pretende contar isso pra Danny?
- isso o quê?
- o que aconteceu, ué.
- nada aconteceu. esse é o problema. se eu contar, com certeza ela vai achar que eu tô escondendo o jogo. as mulheres são difíceis. ela vai achar que eu tô mentindo, vai achar que eu fiquei com alguma delas, e ela não simpatiza muito com essas meninas. prefiro não colocar em risco. seria muito escroto ela ficar puta comigo sem eu ter feito nada.
- é verdade. melhor ficar quieto.
- veja você como as coisas são complicadas. se eu contar, serei o mais sincero possível. você acha que alguma namorada acreditaria numa história dessas? acho que nem eu acreditaria. cara, eu realmente estou muito orgulhoso de mim!
- bom, mas por que você foi pra lá? podia ter ficado logo na sua casa.
- ah, eu tava com fome. e tava bêbado.

terça-feira, novembro 28, 2006

Apenas amigos

Pegou a caneca com cerveja até a borda e deu um belo gole. Deu um suspiro e virou a cabeça para os lados.
- Isso aqui... nossa! Quanto tempo! Você também lembra?
- Sim, claro. Brincávamos juntos a tarde toda por esse quintal.
- É. Nos sujávamos e aí tomávamos um banho de mangueira para depois mergulharmos na piscina. Nem dava pé pra gente.
- Já engoli tanta água dessa piscina...
Eram amigos desde os 3 anos de idade. Estudaram juntos, sempre foram ótimos amigos. Agora regressavam à casa onde passaram infinitas tardes de férias sob o mais escaldante sol da região dos lagos, com o cheiro de sal que vinha das salinas vizinhas. Traziam seus respectivos conjugues junto, um fim de semana entre amigos, uma véspera de Natal.
- Isso tudo parecia maior – disse Carlos.
- É lógico, éramos muito pequenos.
- É estranho, muita coisa por aqui mudou. Nós mudamos, não é mesmo? Mas ainda sinto uma vontade de correr e me jogar na grama, lutar com inimigos invisíveis usando um pedaço de pau como espada.
- Hahaha, ia ser uma bela cena a ser assistida! – observou Elisa.
- Com licença, eu vou ao banheiro – disse Luiz, marido de Elisa, já se levantando da mesa. Depois de cinco latinhas de cerveja a situação fica um pouco complicada!
- Sim, claro, daqui há pouco sou eu!
- Vou aproveitar e fumar um cigarro lá fora, tudo bem?
- Vai nessa.
Marta se apoiou no braço da cadeira e por pouco não desabou no chão. Estava meio tonta com o álcool. Caminhou pela sala e passou pela porta que dava para o quintal. Em frente, a piscina. Puxou um cigarro e hesitou em acendê-lo. Pensou nas recordações que seu marido estava tendo com Elisa e sentiu-se enciumada. Puxou o isqueiro e queimou a ponta do cigarro, tragando-o vagarosamente. A noite estava fresca e silenciosa, e ela pôde ouvir a brasa queimar sob o céu estrelado. Ouviu também as gargalhadas de Carlos e Elisa lá dentro. “São só amigos”, suavizou.
Luiz também deixa a casa e caminha em direção a Marta. Traz consigo duas latas de cerveja.
- Quer uma?
- Ah, obrigada! Eles ainda estão lá, relembrando os maravilhosos tempos de infância?
- Sim, estão se divertindo horrores.
- Pois eu, não.
- Você é muito difícil de agradar.
- Não sou não. Eu apenas gostaria de me incluir na conversa, mas não participei dessas histórias.
- Eu entendo.
- Você acha que há algo entre os dois?
- Creio que não. São apenas grandes amigos, praticamente irmãos.
- Assim espero. Não ia gostar nada de descobrir um caso entre eles.
- Hahaha, hipócrita!
- Hipócrita nada! O que há entre nós dois não é um caso, Luiz!
- Ah, você interpreta assim? Vai dizer também que não tem mais atração por mim, que essa armação toda de você vir aqui pra fora só para me dar um beijo não quer dizer nada?
- Eu ainda não te beijei...
- Questão de tempo. Termina logo esse cigarro.
- Pronto. Vamos um pouco mais pra lá onde eles não podem nos ver.
Enquanto isso, dentro da casa, os dois amigos continuam apenas amigos. Existe um grande elo de união entre os dois, um elo de carinho e respeito, acima de tudo. A cerveja, agora, os acompanha.

Cidade milagrosa!

Eis, mais uma vez, o trânsito caótico da chamada Cidade Maravilhosa. Maravilhoso! Calor, impaciência e stress reunidos dentro deste ônibus, pequeno demais para me conter dentro dele. As saídas de emergência me seduzem, sempre. Uma vontade louca de pegar esses martelinhos e estilhaçar janela por janela, assistir o espanto no rosto dos passageiros, todos com as mãos sobre os ouvidos gritando “olha esse moleque, tá doido, ô, ô, ô, rapaz!”, e eu nem ia ligar, porque se traficantes queimam os ônibus com pessoas dentro, porque eu não posso brincar com as janelinhas sem fazer mal a ninguém? Cidade Maravilhosa, ah!
De volta à realidade, garotão. Esqueça o mundo, esqueça o suor escorrendo pelas costas e molhando sua bunda. Esqueça, olhe ao seu redor e busque alguma razão para este dia existir. Uma televisão ligada dentro de uma loja exibe aquele famoso desenho animado, Cinderela, mas que contraste! Como se fosse um cinema ao ar livre, alguns meninos assistem ao filme sentados no canteiro da calçada, brilhando com poças de suor pelos corpos praticamente nus, perguntando a si mesmos se não seria uma miragem causada pelo calor. Estão fascinados. São crianças descobrindo a infância, finalmente, com seus cigarros empunhados, um reles brinquedo que solta fumaça ou um sinônimo de maturidade, prestam atenção, se empurram, riem e se divertem.
Eles não querem voltar à realidade. Isso mesmo, durante a próxima hora, esqueçam o mundo que lhes chuta no traseiro, esqueçam a falta de sorte e assistência. Vocês ainda são crianças e têm este direito. Levantem os braços e agradeçam o milagre oferecido pela Cidade Maravilhosa. São lágrimas nos meus olhos? Não, não, deve ser suor.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Entrevista com o vampiro

“sabe, já faz tempo que eu escrevo letras de músicas. já fui muito ruim, tentava disfarçar escrevendo em inglês, que você pode escrever qualquer porcaria que fica legal, ainda mais quando se trata de rock, né? deve ser porque o rock foi feito em inglês e isso deixa as coisas muito mais fáceis. de repente eu percebi que talvez fosse legal arriscar rabiscar alguma coisa em português, afinal, eu passei a maior parte da minha vida fazendo redações para o colégio, todas escritas em português, claro, com exceção das redações das aulas de inglês que eu achava um saco, bem contraditório, eu sei. eu também não via nenhuma chance da minha banda se dar bem por aqui cantando em inglês, nem mesmo lá fora, éramos muito novinhos e nem tão bons. bem, escrevi umas músicas em português e foi difícil essa transição, usei muitas palavras escrotas como “pirraça”, “vacilou”, e isso não cai bem numa música de rock, mesmo sendo bastante sincero e tal, mas o pessoal gostou e gosta até hoje. eu não gosto mais. como tudo, com prática você acaba melhorando e acho que isso realmente aconteceu comigo, comecei a pensar mais em quais palavras escrever, tal como Hemingway, não é? pelo menos é o que dizem, que Hemingway ficava horas pensando na frase perfeita, escrevia e reescrevia a mesma frase milhões de vezes até ficar do jeito que ele queria. não, não chego a tanto.”
“...”
“de uns tempos pra cá, eu comecei a escrever textos aleatórios, sem muito compromisso, quer dizer, o único compromisso é comigo mesmo e minha autocrítica, e tomei o hábito de ler. tenho lido muito, devo ter lido mais de trinta livros esse ano, provavelmente. assim se aprende, assim você adiciona palavras ao seu vocabulário e, pô, eu decidi aprender a falar a minha própria língua, isso é estranho mas totalmente compreensível.”
“...”
“estar em contato durante mais tempo com as palavras ajuda muito a eloqüência, você não fica “moscando” meia hora tentando lembrar tal palavra, você simplesmente a substitui por outra, isso é muito legal. tenho muita admiração por um professor que tive na faculdade, o cara nunca parava de falar, digo, nunca emperrava com aqueles “ééééééé”, “aaaahhhmmmm”, “como é mesmo?”. o cara tinha palavra pra tudo!”
“...”
“pois então, eu tava fazendo a grade de horário na faculdade e tinha que pegar uma optativa, eletiva, sei lá, aí vi ‘Oficina de Texto’ e pesquisei sobre a matéria, perguntei para alguns amigos se eles já haviam feito essa cadeira, e alguns já haviam feito e dividiram opiniões. os jornalistas gostaram, a maioria dos publicitários não, porque diziam que era muito voltado para jornalismo. naturalmente, eu pensei. decidi arriscar e, agora que estou praticamente terminando a matéria, tenho também uma opinião positiva, apesar de estar me formando em publicidade período que vem.”
“aprendi, ou pelo menos exercitei mais os meus textos jornalísticos, mesmo não curtindo muito essa onda, mas com certeza é uma soma às minhas habilidades, hahaha!, ao mesmo tempo em que, no momento em que a professora liberou a possibilidade de escrevermos crônicas e textos livres, eu passei a escrever o dobro de textos que escrevia antes, espremendo o cérebro para arranjar assuntos interessantes – e muitas vezes não arranjei – e lidando diretamente com a criatividade, algo que eu prezo muito e considero uma das mais valiosas características de um ser humano.”
“mesmo já escrevendo letras em português há 6 anos, esta aula me incentivou a esmerá-las ainda mais, a fugir do óbvio e a driblar uma certa crise de inspiração que me assolava há uns meses, hehehe! agora já estou tentando bolar um jeito de escrever um texto de trás pra frente, de baixo pra cima. o problema é fazer com que ele tenha algum sentido! a língua portuguesa como um origami, eu devo ta ficando doente, um pouco mais doente.”
“...”
“sim, claro, escrevemos algumas resenhas e releases também, engraçado, porque também é algo que eu costumava fazer direto. enquanto o pessoal tava naquela febre de fotolog, eu fiz um pra mim e comecei a resenhar alguns CDs que tenho na minha coleção. a galera adorou e muita gente passou a conhecer algumas bandas por causa do meu fotolog de resenhas. releases, eu já enjoei de escrever releases para as minhas bandas, aliás, o último que eu escrevi eu gostei muito. é um release interessante porque conta praticamente toda a história da banda num texto sem pontos finais, dividido somente por vírgulas e alguns parênteses, o que dá mais velocidade ao texto e prende bem mais a atenção de quem lê. acho isso legal, fugir dos padrões, bater na cara do óbvio e do modelo. eu espero que outras pessoas que tenham feito essa aula de Oficina de Texto tenham pulado esse muro também. o problema é que, cá pra nós, jornalistas, em geral, são muito caretas e metódicos, muito disciplinados. falo mesmo!”

terça-feira, outubro 10, 2006

Era uma vez um título grande que não tinha muito a ver com o que se via por aí

*este texto foi escrito para minha aula de Oficina de Texto, na PUC, e resolvi manter a formatação usada no original (mesmo porque, se mudasse, o texto perderia muito do seu sentido)*

É aquela velha história. A professora passa uma tarefa, eu escolho fazer uma crônica e, como em 90% das vezes, o tema é livre. Eu inevitavelmente já estou caindo no clichê de escrever sobre a própria vastidão de idéias que me vêm à cabeça, sobre como é difícil focar em nosso objetivo quando simplesmente não existe um. Minha meta é apenas escrever. Pior, escrever da minha maneira, que nem sempre é bem vista.
Já enjoei de discorrer sobre a árdua arte de perseguir uma temática. Não o farei de novo. Já o estou fazendo. Caindo em contradição, mais uma vez. Aposto que daqui sairá mais um texto que, por puro capricho do destino, deverá ser impresso e de certa forma imortalizado – sem merecer – em vez de ser amassado e largado numa lata de lixo.
Por falar nisso, um outro dia eu estava martelando umas teclas e fiz uma mistura de frases na tela do computador. Só faziam sentido para mim. Imprimi e reli com cuidado. Sorri, amassei e joguei no lixo. Na sexta-feira passada eu fiz o mesmo, mas escrevi a lápis num caderno. Foi durante uma aula e eu estava com sono, muito sono, e escrevi um monte de bobagens e palavrões, falei mal de um monte de gente e nem isso fez sumir a imagem da minha cama, ah, minha bela cama! quentinha e desarrumada, que rodava em minha cabeça, tão nítida que eu podia sentir seu peso, pronta para um mergulho como se fosse um lago cristalino. Cheguei em casa e dissequei essas palavras por um tempo. Eu só queria dormir, então arranquei o papel do caderno com um som rascante e o amassei com toda a força que ainda tinha nas mãos. Levantei a tampa da cesta de lixo e me deparei com uma folha embrulhada. Surgiu uma exclamação, e logo depois uma interrogação. Me abaixei e peguei a folha. Ao abri-la, lembrei do que havia escrito há dias atrás. Tanta coisa que eu julguei sequer ter merecido poluir uma folha tão branca, uma lasca de árvore, um pedaço de vida borrado por trivialidades. Os fatos tornaram-se desinteressantes, ultrapassados. Assim é a vida, na maioria das vezes. Me deu pena e raiva, ao mesmo tempo. Quis me machucar, mas estava cansado demais para isso. Dormi com as duas folhas nas mãos.
Eu tento evitar, mas é impossível. Começo a redigir um texto e tenho vontade de entortá-lo, de destruir a sua forma, de chamá-lo de monstro e feio e solitário e cretino e ouvir o que ele tem pra dizer depois disso tudo. Ele não se arrisca a dizer nada, é um fraco. Sabe que se abrir a boca ele vai direto pro lixo e nunca chegará a ser nada. É assim que as coisas funcionam sob o meu controle.
Já passou aquela fase da redação escolar. Ei, tantas linhas, titulozinho bonito, parágrafo com um dedinho de espaço da margem, blá, blá, blá e eu odiava isso tudo, mas acabava escrevendo porque não podia puxar a orelha da “tia” e dizer que isso é podre. Tá certo, as crianças têm que aprender a escrever corretamente, mas deveriam ser dados uns exercícios mais livres, onde elas pudessem sair rabiscando toda e qualquer palavra que viesse à tona e fossem incentivadas a ler mais. Eu nunca fui incentivado a ler. Na verdade, eu fui FORÇADO, um pequeno menino indefeso tendo de lidar com as palavras espinhentas de Machado de Assis, com os labirintos poéticos de Olavo Bilac e outros mais que a literatura brasileira adora enaltecer e puxar o saco. Tudo bem, eles deviam ser bons, aliás, passei a gostar de Machado de Assis depois da escola, quando pude lê-lo por livre e espontânea vontade, sem prazo de tempo, sem outros deveres e obrigações. Aí foi legal.
Aqui se vai mais um texto comum, mais palavras vomitadas por mim, mais estrago. Dessa vez, pelo menos, uso uma bela formatação, algo até certo ponto acadêmico. Sou o grande colecionador de linhas vermelhas do Word, de propósito mesmo. Ainda estou dando uma colher de sopa por usar letras maiúsculas. Normalmente eu as desprezo. Tão altivas, tão desiguais e opressoras. Pronto, hoje é o dia delas. Celebrem, dancem e bebam e rodem, mas não abusem. Por favor, me respeitem. Assim terão chances de ser poupadas mais vezes. É fácil, não faço muita revisão. É assim que as coisas funcionam sob o meu controle.

terça-feira, maio 02, 2006

Às 3 da tarde, pela 3ª vez, no caixa 3 para pagar 3 contas

acabo de voltar do banco tentando bolar um início decente para esse texto. geralmente eu não consigo fazer belas aberturas, promissoras e incentivadoras, e dessa vez não será diferente. acho mais fácil ir direto ao assunto.
quando se toma o hábito de ler e escrever, as ações cotidianas passam a ser observadas de maneira peculiar. as vidas geram intertextualidades, crônicas isoladas ou até mesmo livros, bíblias da rotina. nossos olhos são câmeras, são lápis e borrachas, rabiscando páginas invisíveis, tecendo comentários particulares, monólogos.
então eu desci pelo elevador e em pouco tempo estava na rua. tomei vento no rosto, que trouxe poeira mas também trouxe frescor. passei pela banca de revistas e jornais e vi alguns exemplares de “On the road”, de Kerouac. sorri discretamente para eles. ainda estou lendo o meu.
fiz o caminho já decorado. dobrei a esquina à direita, segui em frente até a próxima esquina, atravessei para a “ilha” e desci para a frente do shopping. continuei à direita e cheguei ao banco. não esperava uma fila tão grande às 3 da tarde. da ante-sala, observei os rostos fatigados, castigados, desalentados de quem está ali para perder e não para ganhar. são as tais crônicas errantes, cada qual com sua idiossincrasia. bufei e olhei ao meu redor. parecia que tudo estava ocupado. me enfiei na fila para o saque. não andava. uma mulher falava alto com um funcionário, mas não de maneira grosseira. apenas alto, e isso me incomodava. a fila não andou quase nada e percebi que estava no lugar errado, e não no fim da própria, como deveria estar. me desloquei e olhei através da porta de vidro para a rua. encontrei uma outra banca de jornais e decidi dar uma olhadinha mais de perto. fui até lá e peguei uns livros já conhecidos mas não lidos, fitei as capas, os preços, a poeira. são livros que ainda quero ler, mas ando meio sem grana. qualquer dia.
voltei ao banco e a fila parecia não se mover. tive a brilhante idéia de sacar o dinheiro no shopping, então tornei a sair à rua, entrei no shopping e, só para confirmar minha simples teoria de que sempre terá alguém que chegou antes de você, na sua frente, fazendo o que você gostaria de estar fazendo, dei de cara com uma mulher encostada ao caixa. o caixa ao lado estava vazio, felizmente. testei o cartão e a máquina não o aceitou. forcei mais uma vez e nada. parecia bloqueada. bufei de novo e me firmei às costas da mulher no caixa da esquerda. que demora. que demora. “quer ajuda?”, pensei em perguntar, mas ela logo se virou e me atacou primeiro. “essa caixa aí não ta funcionando”? “acho que não”, respondi, “tentei colocar o cartão mas ele não entrou”. “vou tentar de novo”, e assim o fiz e o maldito cartão entrou pela gavetinha, feliz por estar sendo útil. realizei o que tinha de ser feito e saí do shopping, rumo mais uma vez ao banco.
entrei pela 3ª vez no estabelecimento e a fila para o saque estava completamente vazia. esse Murphy era um filha da puta de alta categoria pra perceber algo tão óbvio e tão sarcástico que o simples fato de criar uma “lei” com seu nome já soa como brincadeira. dei um “boa tarde” para uma funcionária que estava do lado da porta rotatória, segurei a mochila nas mãos e passei. agora o negócio era encarar a fila-mãe, intimidadora, incomensurável. vagarosamente, pisei em cima da faixa amarela escrita “entrada” e bufei pela terceira vez. não há muito o que se fazer numa fila de banco. as pessoas geralmente tentam criar assuntos em torno da demora, dos problemas do banco, da ineficiência de fulaninho ou fulaninha, gostam de botar a culpa no presidente mesmo sem saber por quê, etc. são assuntos que eu me limito a aquiescer, dizer um “é”, dar uma risadinha carismática ou simplesmente emitir um suspiro.
olhei para os caixas. no caixa 1, a mesma vesguinha da semana passada, com um aparelho adolescente nos dentes e cara de séria. no caixa 2, uma gordinha simpática pra caramba, atochada na cadeira por trás do balcão. bem baixinha, aparentemente, e muito ágil com seu milhão de dedos batendo freneticamente no tecladinho à sua frente. no caixa 3... ah, não acredito! é ela mais uma vez! uma morena lindíssima que me atendeu na semana passada, com a voz doce e um olhar curto, porém direto, uma certeza absurda de que é o centro das atenções masculinas, meninos, adultos, coroas, pedreiros, pintores, engenheiros, office boys, serventes, advogados, porteiros e o caralho a quatro, assim como modelo de inveja para a maioria das mulheres presentes. ela me cativou na semana passada e me cativa agora, com sua boca desenhada, sua atenção no trabalho, suas mãos bem cuidadas, suas sardas no colo, entre os pequenos, bem pequenos seios que tornam-se grandes desejos quando vistos de perto, imaginados nus e beijados. apenas sua sobrancelha lhe atribui um ar irreal, algo artificial naquele rosto meio índio, meio boneca, meio simples até, mas que se destaca dentro do banco monótono e a transforma na dona do universo.
a fila ia andando. seria muita coincidência ser atendido por ela mais uma vez. sabe como é aquele esquema de banco, quatro caixas que, assim que liberadas, apertam um botão na mesa e projetam o número do caixa livre numa espécie de placar eletrônico. impossível saber onde você irá cair. mas ainda faltava muito, a fila andava com um desânimo intenso, um tédio profundo. não dá pra se manter parado, então comecei a buscar mais informações ao meu redor. nada muito interessante, nada mais interessante que ela, a caixa número três, a morena linda das mãos cuidadas e sujas de tanto mexer em dinheiro. eu olhava para ela incontrolavelmente, ainda tentava disfarçar mas era ridículo. tentei fitar o chão, vi meus pés nos chinelos comprados num tal Bar do Zé, em Arraial do Cabo, um desespero. achei meus pés mais feios do que costumava achar. como se imantados, meus olhos se ergueram do chão indo direto ao encontro da moreníssima. ela estava mexendo em um monte de papéis, arrumando um chumaço agregado por um elástico. ela olhou pra mim também. tudo parou por um instante até que eu conseguisse piscar os olhos e balançar a cabeça, como se estivesse saindo de uma divagação absurda sobre a origem da Terra, os animais, as plantas, os homens, as sociedades, a globalização e o fim de tudo, a superfície sendo sugada por um buraco imenso no meio da maior potência internacional, como um ânus que em vez de cagar chupa toda a merda pra dentro.
bom, ela olhou pra mim também, eu tenho certeza! desviei o olhar para uma mulher baixinha à minha direita, totalmente por acaso, e encontrei um seio quase à mostra por uma fenda larga entre seu corpo e a camiseta rosa, ou sei lá que diabos era aquilo que ela estava usando. uma mulher negra, corpulenta, de mãos grandes e pés bastante castigados, mas com unhas muito bem feitas, percebeu meu experimento e me lançou um olhar de reprovação, como se eu fosse um aproveitador. não, não estava nem um pouco interessado neste pedacinho de carne prestes a pular para a vida, não, não, não! na verdade só estou aqui passando meu tempo, trocando mensagens codificadas com a caixa número três enquanto não sou atendido, tentado driblar o óbvio e focar meus olhos em outros lugares. foi pura loteria!
agora não faltava muito. 3 pessoas na minha frente. o placar mostra o número 1, e logo em seguida o 3. e se ela me atender de novo? coincidência? devo dizer algo a ela? ela se lembraria de mim? “ela me olhou de novo, acabou de olhar!”, comprovei. que porra de brincadeira é essa? será que ela percebeu que eu estou me entretendo com ela à distância? ela sabe que é linda, sacana. o placar mostra o número 2. o próximo sou eu. sim, eu devo dizer algo a ela. direi “oi”, ou “olá”, “boa tarde”, algo assim. pisca o número 3, em pequenas luzinhas vermelhas com uma seta à esquerda. inacreditável. a partir de hoje, devido a este golpe do destino, deverei abdicar do meu número amado, o 7, para abraçar o 3. vou andando bem devagar. de toda a excitação e empolgação que eu estava guardando para dizer um “oi”, só usei 5%. saiu uma palavra chocha, inaudível e, conseqüentemente não respondida. passei os boletos para ela. muito atenciosa, profissional essa mulher. desci meus olhos para suas sardas perfeitas, e como eu adoro pintinhas. estou sendo indiscreto, será? olhei para cima, para os lados, para ela. estava concentrada, mas com um pequeno sorriso nos lábios brilhantes. passei o segundo boleto pela placa de acrílico. vou escrever sobre você, e vou te tirar daqui. você fará parte de um texto meu, o grande jovem escritor, nem sequer ainda formado na faculdade de publicidade, mas que ganhará o diploma e o enfiará em algum buraco porque ele quer mesmo é viver escrevendo ou ser músico. você vai ficar famosa, a musa do caixa três, se aproveitará disso tudo e casará com algum ator de novela ou jogador de futebol, sua ingrata, e aparecerá freqüentemente em revistas de fofoca. ei, eu vou salvar você!
paguei a 3ª e última conta e dessa vez o meu “obrigado” foi respondido com um inesquecível “de nada”, seguido de um “tchau” e acompanhado por um olhar derradeiro. que mel, que estranheza, que atípico. caí em mim e dei logo o fora daquele lugar. atravessei as ruas vagarosamente, ainda em choque pelo incidente. o que estava acontecendo? o que o tédio não faz com a gente. quantos detalhes, quantos minutos, quase uma hora! o coração batia forte por uma mulher que deve ter nascido pelo menos uma década antes de mim. perguntas surgiam, brotavam como bolhas depois de jogado sal de frutas na água. de onde será que ela é? o que será que ela faz enquanto eu sento no meu quarto e como dúzias de chocolates, deixo minha cara cheia de espinhas? será que tem alguém, algum namorado, noivo, marido? uma crônica nunca lida por mim, mas, como os livros da banca, um dia eu a quero ler.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Amidalites, pro inferno!

são 3:35 da manhã e eu estou lamentando a maldita amidalite que me venceu. gritos, cervejas e cigarros não formam uma boa combinação, e eu já havia aprendido isso há tempos. apenas me recuso a evitá-la. ela me conquista, me testa e sabe que sempre irei ceder.
pois bem, hoje quando me levantei achei que tivesse com um par de meias socado no gogó. a sensação era parecida. ensaiei um murmúrio e constatei que precisava ir ao banheiro cuspir todo aquele pus e saliva que me impedia de respirar tranqüilamente. fi-lo. meu rosto no espelho não estava mal, apesar da barba rala. levemente corado e estranhamente “liso", ou melhor, sem muitas espinhas. acho que consegui me desvencilhar de minha adolescência.
resolvi tomar logo um antibiótico numa atitude desesperada. 500 mg de algum composto químico milagroso jaziam na palma de minh
a mão, na aterrorizadora forma de um comprimido gigante. acho que os caras que inventam esse tipo de coisa esquecem que quem irá tomá-las são pessoas com apenas 0.5 cm de espaço livre entre as amídalas para a passagem de alimentos, ou líquidos. muito obrigado!
não senti fome, e nem poderia sentir. tentei engolir um pouco de saliva e a dor me convenceu de que talvez não fosse tão mal passar um dia em jejum. talvez fosse mais prudente. bebi uns goles d’água – temperatura ambiente – que desceram como um enxame de abelhas goela abaixo. eu precisava resistir.

minha barriga começou a roncar e então experimentei abrir a geladeira e procurar algo não muito sólido. nada. nem um iogurte ou coisa parecida. lembrei que também não deveria ser nada muito gelado, e então fechei a porta. nada no armário, igualmente. hoje não é meu dia, pensei. já estou fodido mesmo, bem, fodido e meio, então. reabri a geladeira e busquei algumas coisas para preparar uma pizza de frigideira. montei a desgraçada e olhei pra ela fixamente por alguns segundos. eu podia ouvi-la, saboreando as palavras: “me coma, me coma... se puder”. sacrifício! desejei com todas as minhas forças que essa pequena pizza pudesse ter o poder de me alimentar e saciar minha fome durante o resto deste maldito dia.
era como tentar passar uma cadeira pelo gargalo de uma garrafa de refrigerante. deixei um copo de mate em cima da pia durante todo esse tempo para que não ficasse tão gelado. não adiantou, mas não liguei muito pra isso e bebi do mesmo jeito. dane-se. rebeldia, pô! é isso aí! “e agora eu vou fazer nada”.
amidalites me tiram o ânimo pra fazer qualquer coisa. tentei assistir a um filme, mas o telefone não deixou. me rendi e acabei saindo pros arredores de casa. pouco tempo depois estava de volta. precisava beber um pouco. a cerveja estava ali do lado, podia sentir o cheiro e até mesmo o gosto... foi melhor voltar.
estou perto de tomar uma grande decisão. acho que vou tirar minha amídalas. elas não servem pra nada, nunca serviram. cansei. talvez faça um chaveiro com uma delas.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Um feriado bastante aguardado

eu ando dando muito valor aos fins de semana. são alguns pouquíssimos dias de descanso, mas que geralmente resolvem parte dos meus problemas. anseio pelo sábado e pelo domingo como uma criança que aguarda o relógio marcar 00:00 do dia 25 de dezembro para que possa, enfim, abrir seus presentes de Natal. imagine qual não foi minha excitação ao me dar conta de que este fim de semana seria melhor que os outros pelo fato de contar com um belíssimo feriado na terça-feira? sim, o dobro de dias para me esbaldar por aí!
mas o que aconteceu foi que a pilha descarregou logo na sexta-feira à noite. foi uma ótima noite, uma despedida digna. desfaleci. acordei no sábado já com 39.1 de febre, um princípio de conjuntivite e dores que mastigavam minhas pernas. alguém achou que eu merecia uma coisa dessas, talvez. não conseguia me manter em pé por mais do que alguns minutos. sem fome, sem motivação, sem ânimo. mal conseguia pensar. dormi quase que o dia inteiro, feito um mendigo de porre. não, não! antes eu fosse um mendigo de porre, nas ruas, com aquele sorriso despreocupado na boca quase sem dentes. pensando bem, eu não sei quem estava pior. eu, que tinha noção da minha situação, ou o mendigo, que empurra a vida com a barriga - vazia -, sem esperança alguma de mudança.
acordei no domingo já com algum apetite. sinais de que eu poderia estar melhorando. me toquei de que havia perdido um sábado inteirinho. bom, se serve de paliativo pra mim, pelo menos eu descansei horrores. bah, não posso continuar me enganando. achei que meu domingo fosse transcorrer da mesma maneira, mas ela veio aqui me ver! assistimos a um filme, comemos pizza, ganhei abraços e beijos. foi melhor do que muitos domingos sadios.
veja só, hoje já é segunda-feira e eu ainda não abandonei meu cativeiro. estou suando só de olhar pela janela. o sol me encara e parece dar uma risadinha. acho que ele tem algo a ver com essa conspiração. não nos damos muito bem, e isso está exposto na minha pele. que se dane. sempre preferi a lua. acho que hoje eu consigo vê-la do lado de fora da minha casa. me espere, prometo que hoje vou te encontrar!

(ouvindo 'minus the bear - this is what i know about being gigantic')